sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muerte e Hecoteptl Capítulo 12!

 

Muerte e Hecoteptl: as mulheres de barro e a arte de escavar a própria alma!

O que Clarissa Pinkola Estés pode estar nos ensinando ao trazer essas figuras para O Urso da Meia-Lua

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés utiliza mitos, contos e símbolos para falar de experiências emocionais que muitas vezes são difíceis de explicar apenas pela razão. No capítulo O Urso da Meia-Lua, em que aborda a raiva, os limites e o perdão, há uma passagem pequena, mas muito interessante, na qual ela menciona Muerte e Hecoteptl.

Ao explicar o simbolismo do urso, Clarissa primeiro fala de Ártemis e Diana, deusas caçadoras das tradições grega e romana. Em seguida, cita Muerte e Hecoteptl, que apresenta como divindades femininas de lama — ou de barro — das culturas latino-americanas. A autora relaciona essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e “escavar” os aspectos psíquicos das coisas.

É justamente a palavra “escavar” que torna essa referência tão rica psicologicamente.

O que significa “escavar” a própria psique?

Quando sentimos alguma emoção intensa, geralmente percebemos primeiro aquilo que está na superfície.

“Estou com raiva.”

“Estou irritada.”

“Não suporto mais essa situação.”

Mas será que a raiva é toda a história?

Às vezes, quando começamos a olhar um pouco mais fundo, encontramos outras coisas por baixo dela:

uma frustração que nunca foi expressada;

uma sensação de desrespeito;

um limite que foi ultrapassado;

um medo;

uma decepção;

uma necessidade que foi ignorada;

ou até uma experiência antiga que aquela situação atual acabou despertando.

É como fazer uma escavação.

Primeiro encontramos a camada que está mais próxima da superfície. Depois retiramos um pouco mais de terra. E mais um pouco. Até encontrarmos aquilo que estava escondido.

Por isso gosto de pensar que, simbolicamente, Clarissa nos convida a fazer uma espécie de arqueologia da própria alma.

Não basta perguntar:

“Por que estou com raiva?”

Talvez seja preciso continuar:

“O que existe por baixo dessa raiva?”

E por que mulheres de barro?

A imagem do barro também nos oferece uma possibilidade muito bonita de reflexão.

O barro é formado pela terra misturada à água. É uma matéria que pode ser tocada, moldada e transformada.

E o barro também guarda marcas.

Quando pressionamos a mão sobre ele, alguma coisa fica registrada.

Nossa história emocional também guarda marcas.

Algumas experiências passam rapidamente. Outras deixam impressões profundas. Palavras, rejeições, perdas, relações, injustiças e acontecimentos importantes podem continuar dentro de nós muito tempo depois de terem terminado.

Mas existe outra característica do barro que considero fundamental:

o barro pode ser remodelado.

Ter sido marcado por alguma experiência não significa necessariamente permanecer para sempre com a mesma forma.

Podemos olhar novamente para aquilo que aconteceu, compreender de outra maneira, elaborar sentimentos e construir novas respostas.

É uma imagem que combina profundamente com a proposta de O Urso da Meia-Lua: não negar a experiência, mas transformá-la.

E quem são Muerte e Hecoteptl?

Aqui é necessário algum cuidado.

Muerte, em espanhol, significa “morte”. Dentro do universo simbólico de Clarissa, a morte aparece diversas vezes não apenas como morte física, mas como parte do movimento Vida–Morte–Vida: alguma coisa termina para que outra possa surgir.

Hecoteptl é uma referência muito mais obscura. Embora o nome esteja realmente presente tanto na passagem de Clarissa quanto em reproduções da edição em inglês, é difícil encontrar fora da obra uma tradição mitológica bem documentada que permita contar com segurança “a história de Hecoteptl”. A própria passagem inglesa apresenta Muerte and Hecoteptl como mud women deities das culturas latinas.

Por isso, prefiro não inventar uma genealogia, um culto ou uma história que as fontes disponíveis não sustentam.

Para compreender o capítulo, entretanto, isso não impede que trabalhemos com o significado que Clarissa atribui a essas figuras dentro do próprio texto.

E esse significado é bastante claro:

rastrear, conhecer e escavar.

Muerte e aquilo que precisa terminar!

Se olharmos para Muerte dentro da linguagem simbólica de Clarissa, encontramos outra pergunta importante:

O que já terminou, mas eu continuo mantendo vivo dentro de mim?

Às vezes é uma relação que acabou há anos.

Uma expectativa que nunca se realizou.

Uma mágoa.

Uma antiga discussão.

Uma injustiça.

Uma versão de nós mesmas que já não existe.

Ou uma raiva que, em determinado momento, teve uma função importante — talvez tenha nos ajudado a sobreviver, a reagir ou a reconhecer uma injustiça — mas que continua ocupando espaço muito depois de o acontecimento ter passado.

Nesse sentido, a morte simbólica não significa apagar a história.

Significa reconhecer:

“Isso aconteceu. Fez parte da minha vida. Deixou marcas. Mas não precisa continuar comandando meu presente.”

Essa ideia aparece novamente no capítulo quando Clarissa fala dos muen-botoke, os “mortos órfãos” da psique, e posteriormente dos Descansos: experiências, sonhos e partes de nossa história que precisam ser reconhecidas, pranteadas e finalmente colocadas em algum lugar dentro de nós.

De Ártemis a Muerte: primeiro rastrear, depois escavar!

Existe uma sequência simbólica muito interessante nessa passagem.

Ártemis e Diana são caçadoras.

A caçadora precisa perceber rastros.

Uma pegada.

Um ruído.

Um movimento.

Uma alteração no ambiente.

Psicologicamente, podemos pensar:

“O que estou percebendo em mim?”

“Meu corpo ficou tenso.”

“Minha voz mudou.”

“Estou irritada.”

“Alguma coisa me incomodou.”

Esse é o rastro.

Muerte e Hecoteptl acrescentam outra dimensão:

agora é preciso escavar.

“Por que isso me atingiu?”

“O que realmente me feriu?”

“Essa emoção pertence somente ao que aconteceu hoje?”

“Que limite foi ultrapassado?”

“Existe alguma história anterior aparecendo novamente?”

Por isso podemos resumir:

**Rastrear é perceber os sinais.

Escavar é descobrir o que existe por trás deles.**

E o que isso tem a ver com a raiva?

Tudo.

O capítulo não nos ensina simplesmente a eliminar a raiva.

Clarissa apresenta a raiva como uma emoção que pode trazer conhecimento. Ela pode iluminar lugares que normalmente não enxergamos e mostrar alguma coisa que precisa da nossa atenção.

Mas, quando não é compreendida e transformada, a raiva também pode nos aprisionar.

Podemos começar a interpretar situações novas através de dores antigas.

É por isso que escavar não significa alimentar a raiva.

Significa compreendê-la suficientemente para não precisar permanecer presa a ela.

Imagine uma pessoa que fica furiosa porque alguém se atrasou para encontrá-la.

Na superfície:

“Estou com raiva porque você se atrasou.”

Ao rastrear:

“Percebi que fiquei muito mais irritada do que imaginava.”

Ao escavar:

“O que realmente me atingiu foi sentir que meu tempo não tem importância.”

Mais profundamente:

“Talvez isso toque numa história antiga em que muitas vezes eu me senti desconsiderada.”

Agora existe mais consciência.

O acontecimento não mudou.

Mas a pessoa já consegue distinguir o fato presente da história emocional que ele despertou.

Isso é muito diferente de simplesmente descarregar a raiva.

Nem tudo que encontramos precisa continuar conosco!

Existe ainda outra beleza na imagem da escavação.

Quando um arqueólogo encontra alguma coisa enterrada, ele não necessariamente volta a viver naquela época.

Ele encontra.

Observa.

Compreende.

Dá significado.

E coloca aquilo dentro de uma história.

Talvez possamos fazer algo semelhante com nossas experiências.

Nem toda dor que encontramos precisa voltar a dirigir nossa vida.

Nem toda mágoa precisa ser alimentada.

Nem toda história precisa ser repetida.

Às vezes precisamos encontrar alguma coisa justamente para finalmente conseguir deixá-la descansar.

Uma arqueologia da própria alma!

Talvez essa seja uma das mensagens que podemos retirar dessa pequena referência de Clarissa.

Conhecer a nós mesmas exige coragem para olhar não apenas para aquilo que mostramos ao mundo, mas também para aquilo que ficou enterrado.

Existem momentos em que precisamos ser Ártemis e rastrear.

Perceber os sinais.

Existem momentos em que precisamos ser como essas mulheres de barro e escavar.

Ir um pouco mais fundo.

Existem momentos em que precisamos reconhecer Muerte.

Aceitar que alguma coisa terminou.

E então permitir que aquilo que encontramos seja transformado.

Não para vivermos permanentemente olhando para o passado, mas justamente para que o passado não precise continuar decidindo o presente.

Talvez o verdadeiro trabalho seja este:

rastrear o que sentimos,
escavar o que existe por trás,
compreender o que encontramos
e reconhecer o que já pode ser deixado descansar.

E fica uma pergunta:

O que existe debaixo daquilo que você chama simplesmente de raiva?

Talvez compreender uma emoção seja, algumas vezes, exatamente isso:

fazer uma arqueologia da própria alma.

Nota: Clarissa Pinkola Estés menciona Muerte e Hecoteptl em Mulheres que Correm com os Lobos como divindades femininas de lama/barro e associa essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e escavar aspectos psíquicos. Hecoteptl é pouco documentada fora dessa referência; por isso, este texto trabalha principalmente com o significado simbólico apresentado pela própria autora, sem atribuir à figura uma história mitológica não confirmada.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

🌿 Com carinho,

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Ártemis & Diana Capítulo 12!

 


Ártemis e Diana: a força feminina que rastreia, protege e sabe quando agir!

Por que Clarissa Pinkola Estés aproxima essas deusas do Urso da Meia-Lua?

No capítulo 12 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés está falando de raiva, limites, instinto, autocontrole e capacidade de transformação. Em determinado momento, ao explicar “O Espírito do Urso”, ela associa o animal a antigas deusas caçadoras, entre elas Ártemis, na tradição grega, e Diana, na tradição romana. A autora afirma que essas figuras simbolicamente concedem às mulheres a capacidade de “rastrear”, conhecer e buscar aquilo que está escondido nos aspectos mais profundos da psique.

Essa referência não aparece por acaso. Quando conhecemos melhor a história dessas deusas, percebemos que Clarissa escolheu duas figuras ligadas justamente à natureza selvagem, à autonomia, à proteção, aos ciclos femininos e à capacidade de reconhecer e defender um território.

Quem é Ártemis?

Ártemis pertence à mitologia grega. É filha de Zeus e Leto e irmã de Apolo. A tradição mais conhecida situa o nascimento dos filhos de Leto na ilha de Delos. Ártemis tornou-se uma das grandes divindades do panteão grego, associada principalmente à vida selvagem, à caça, aos animais, às montanhas e à proteção de meninas e mulheres.

É importante perceber uma aparente contradição que, simbolicamente, torna Ártemis ainda mais interessante.

Ela é uma deusa caçadora — carrega arco e flechas, percorre florestas, vive livre e protege seu espaço. Mas também é protetora de animais selvagens, de meninas e, em determinadas tradições, das mulheres no parto.

Portanto, Ártemis reúne características que nossa mente costuma separar:

ela pode caçar e proteger;
ser feroz e cuidadora;
ser independente e protetora;
impor limites e preservar a vida.

Essa ambivalência ajuda a compreender por que Clarissa a aproxima do urso.

No próprio capítulo, a autora diz que a imagem do urso ensina que podemos ser ferozes e generosas ao mesmo tempo, defender nosso território e, ainda assim, continuar disponíveis e capazes de vínculo.

Ártemis e a autonomia feminina!

Ártemis também representa uma mulher que não organiza sua existência em função de um parceiro masculino. Nos mitos, permanece virgem — mas “virgem”, nesse contexto simbólico, não precisa ser lido apenas no sentido sexual moderno.

Em leituras arquetípicas posteriores, essa característica passou a representar uma mulher que pertence a si mesma.

Ela sabe onde quer ir.

Possui direção.

Não precisa necessariamente da aprovação do outro para reconhecer o próprio caminho.

Sua imagem de caçadora reforça essa ideia: para atingir um alvo, é preciso vê-lo, concentrar-se e direcionar a flecha.

Psicologicamente, podemos fazer uma aproximação com a capacidade de perguntar:

O que quero?
O que estou percebendo?
Para onde minha energia está sendo direcionada?
O que precisa ser protegido?

É muito semelhante à ideia de “rastrear” a própria vida psíquica utilizada por Clarissa.

O urso de Ártemis!

Existe uma ligação histórica particularmente interessante entre Ártemis e o urso.

No santuário de Ártemis em Brauron, na Ática, meninas participavam de rituais nos quais eram chamadas de arktoi — “ursinhas”. O ritual fazia parte das transições relacionadas à infância feminina e à futura entrada na vida adulta. O Metropolitan Museum descreve meninas servindo à deusa em Brauron como “little bears”, pequenas ursas.

O urso também aparece associado a Ártemis em diferentes tradições gregas, inclusive na Arcádia. Fontes antigas e estudos posteriores registram o animal entre aqueles relacionados à deusa.

Isso torna a escolha de Clarissa ainda mais significativa: ela não está simplesmente colocando uma deusa caçadora ao lado de um urso por associação livre. Existe uma antiga relação simbólica entre Ártemis e esse animal.

O mito de Calisto: mulher, urso e constelação!

Outro mito fortalece essa ligação.

Calisto era uma jovem associada à comitiva de Ártemis. Existem diferentes versões de sua história, mas todas giram em torno de sua relação com Zeus, sua transformação em ursa e, posteriormente, sua associação à constelação da Ursa Maior. As versões antigas divergem sobre quem realiza a transformação e sobre diferentes detalhes, algo comum na mitologia grega.

Aqui novamente encontramos:

mulher → natureza selvagem → urso → transformação → céu.

É um conjunto simbólico muito próximo daquilo que Clarissa procura desenvolver no capítulo: uma força feminina que precisa reencontrar sua natureza instintiva para transformar uma emoção que estava aprisionando a psique.

E quem é Diana?

Quando chegamos a Roma, encontramos Diana.

É comum dizer simplesmente que Diana é “a Ártemis romana”, mas historicamente isso simplifica demais a história.

Diana já era uma divindade itálica própria. Posteriormente, com a aproximação cultural entre gregos e romanos, foi progressivamente identificada com Ártemis e absorveu muitos de seus mitos e atributos.

Diana estava relacionada às florestas, à vida selvagem, à caça, às mulheres e ao parto. Sua associação com a luz e com a Lua também ganhou enorme importância na tradição romana. Um dos seus principais centros de culto ficava em um bosque próximo ao Lago Nemi, na Itália.

Mais uma vez encontramos uma deusa cujo território não é a cidade organizada.

É a floresta.

O bosque.

A noite.

Os animais.

Os lugares em que o ser humano não controla completamente a natureza.

É justamente o espaço simbólico da Mulher Selvagem de Clarissa.

Diana e a Lua!

A presença da Lua acrescenta outra camada muito bonita à leitura do Urso da Meia-Lua.

Diana foi fortemente associada à Lua e à luz noturna. Na iconografia posterior, o crescente lunar tornou-se um de seus atributos.

Em relação a Ártemis, é bom fazer uma distinção: sua identificação direta com a Lua não está presente da mesma forma nas camadas mais antigas da religião grega; ela se desenvolveu posteriormente por aproximações com outras divindades e tradições.

Mas simbolicamente a Lua traz exatamente um dos elementos que Clarissa desenvolve no capítulo:

o ciclo.

A Lua cresce.

Chega à plenitude.

Diminui.

Desaparece.

E retorna.

O urso também vive em ciclos:

atividade → recolhimento → hibernação → despertar.

E Clarissa utiliza essa característica para falar da autorregulação emocional: saber quando estar ativa, quando diminuir o ritmo, quando recolher-se e quando voltar à vida.

Então por que Clarissa escolheu Ártemis e Diana?

É aqui que mito e psicologia se encontram.

Clarissa não está utilizando mitologia como se estivesse dando uma aula de religião antiga. Ela trabalha com aquilo que podemos chamar de linguagem arquetípica.

Uma imagem reúne muitas experiências humanas ao mesmo tempo.

Ártemis e Diana representam mulheres que conhecem a floresta.

E o que é uma floresta psicologicamente?

Pode ser aquele lugar interno em que não existem estradas perfeitamente sinalizadas.

É onde precisamos de percepção.

Instinto.

Atenção.

Precisamos rastrear.

E rastrear é uma palavra fundamental nesse trecho.

Quem rastreia não vê necessariamente aquilo que procura diante dos olhos. Percebe indícios:

uma pegada;

um galho quebrado;

uma mudança no terreno;

um som;

um cheiro;

uma direção.

Psicologicamente, fazemos algo semelhante quando começamos a observar:

Por que isso me incomodou tanto?
Quando comecei a me sentir assim?
O que meu corpo está dizendo?
Qual limite foi ultrapassado?
Essa raiva pertence apenas ao presente ou existe alguma história anterior sendo tocada?

Isso é rastrear a psique.

Clarissa escreve que essas deusas concedem simbolicamente às mulheres a capacidade de rastrear, conhecer e “escavar” os aspectos psíquicos das coisas.

É importante fazer uma distinção: essa formulação é a interpretação mitopoética e psicológica de Clarissa. Não devemos afirmar que os gregos ou romanos antigos entendiam Ártemis e Diana exatamente dessa maneira psicológica.

Clarissa toma o material mitológico e o transforma em uma linguagem para compreendermos a vida interior.

A mulher que protege o território!

Existe ainda outra relação essencial com o capítulo 12.

Ártemis é uma deusa profundamente ligada ao território selvagem.

Diana reina nos bosques.

O urso protege seu espaço.

E o capítulo inteiro gira em torno de “A demarcação do território: os limites da raiva e do perdão”.

Não poderia ser uma associação mais coerente.

Psicologicamente, território significa muito mais do que espaço físico.

Nosso território é também:

nosso corpo,
nosso tempo,
nossos valores,
nossa dignidade,
nossos relacionamentos,
nossas escolhas,
nossos limites.

A raiva pode aparecer justamente quando percebemos que alguma coisa atravessou essas fronteiras.

E o aprendizado proposto por Clarissa não é viver permanentemente mostrando os dentes.

É aprender a reconhecer:

Quando devo esperar?
Quando devo observar?
Quando devo me afastar?
E quando preciso dizer: “Até aqui.”

Feroz não significa cruel!

Talvez esta seja uma das mensagens mais bonitas dessa aproximação entre Ártemis, Diana e o Urso da Meia-Lua.

Durante muito tempo, fomos ensinadas a pensar em pares opostos:

ou sou amorosa ou sou firme;

ou sou acolhedora ou coloco limites;

ou sou generosa ou penso em mim;

ou sou tranquila ou sinto raiva.

Clarissa desmonta essa divisão.

O urso pode ser feroz e generoso.

Ártemis pode proteger e caçar.

Diana pode ser senhora da floresta e protetora das mulheres.

A maturidade emocional talvez esteja justamente em integrar essas forças.

Não precisamos perder a sensibilidade para estabelecer limites.

Não precisamos eliminar a raiva para sermos pessoas amorosas.

E não precisamos nos tornar agressivas para recuperar nossa força.

Talvez precisemos aprender aquilo que essas antigas imagens continuam nos dizendo:

saber perceber, saber rastrear, saber proteger, saber recolher-se — e saber quando chegou a hora de agir.

Para refletir:

Talvez Ártemis nos perguntasse:

“Qual é o seu alvo?”

Diana talvez perguntasse:

“O que precisa ser protegido?”

E o Urso da Meia-Lua poderia acrescentar:

“Você reconhece o momento de avançar e o momento de se recolher?”

São perguntas antigas.

Mas continuam profundamente atuais.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
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Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

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