Há momentos em uma leitura em que
uma frase nos faz parar. Não porque seja difícil, mas porque parece tocar
alguma coisa que já conhecíamos antes mesmo de encontrar palavras para
explicar.
Foi assim comigo ao chegar a um
trecho de A Donzela sem Mãos, em Mulheres que Correm com os Lobos,
no qual Clarissa Pinkola Estés fala sobre o mistério das mãos.
Ela diz que as mãos não são apenas
receptoras. Elas também são transmissoras.
E, para quem conhece ou vivencia o
Reiki, é quase impossível passar rapidamente por essa ideia.
Não porque Clarissa esteja falando
diretamente de Reiki — ela não está. Mas porque toca exatamente num território
que o Reiki também nos convida a perceber: as mãos como lugar de presença,
percepção, troca e cuidado.
Nós costumamos pensar nas mãos
principalmente pelo que elas fazem.
As mãos trabalham.
Escrevem.
Cozinham.
Limpam.
Constroem.
Seguram.
Carregam.
Protegem.
Abraçam.
Mas talvez exista nas mãos uma
sabedoria que anteceda o fazer.
Antes de agir, elas sentem.
Pense no gesto quase automático de
colocar a mão sobre a testa de uma criança para perceber se ela está quente.
Na mão que pousa no ombro de alguém
que está chorando quando nenhuma palavra parece suficiente.
Na maneira como seguramos a mão de
uma pessoa doente.
Na mão de uma mãe sobre o peito do
filho assustado.
Na mão que acaricia alguém que
amamos.
Na mão que se estende para dizer:
“Venha, eu estou aqui.”
Em muitos desses momentos, não
estamos tentando produzir nada.
Estamos apenas presentes.
E, ainda assim, alguma coisa é
comunicada.
Clarissa chama atenção justamente
para isso. A pressão de um aperto de mãos, a duração do toque, a temperatura, a
intensidade, tudo comunica alguma coisa. O corpo percebe aquilo que muitas
vezes a mente ainda não conseguiu organizar em palavras.
Talvez por isso existam pessoas cujo
toque nos tranquiliza imediatamente.
E outras diante das quais o corpo se
contrai.
Não precisamos transformar isso em
algo sobrenatural para reconhecer que existe uma linguagem silenciosa
acontecendo.
O corpo fala.
E as mãos parecem ser uma de suas
formas mais antigas de expressão.
Clarissa percorre imagens muito
bonitas antes de chegar a essa reflexão. Lembra das palmas no flamenco, que
praticamente conversam por meio do ritmo. Fala das mãos voltadas para o Menino
Jesus em antigas representações mediterrâneas, como se aquelas palmas pudessem
receber sua luz. Recorda a imagem da Virgem de Guadalupe com as mãos voltadas
para quem a contempla. E menciona uma antiga marca de mão vermelha encontrada
numa cabana navajo, cujo significado era algo próximo de: aqui estamos seguros.
É interessante perceber quantas
culturas colocaram nas mãos significados que vão muito além da função física.
A mão abençoa.
A mão acolhe.
A mão protege.
A mão dá.
A mão recebe.
E talvez seja justamente por isso
que a imagem da Donzela sem Mãos seja tão dolorosa.
Porque não estamos falando apenas de
uma mulher que perde uma parte do corpo num conto antigo.
Simbolicamente, ela perde
temporariamente uma maneira de se relacionar com o mundo.
Clarissa diz que, ao perder as mãos,
a mulher é afastada da capacidade de consolar a si mesma, de agir imediatamente
sobre sua própria dor, de tocar, perceber e cuidar da maneira como fazia antes.
E isso muda completamente a leitura
da mutilação.
Há épocas da vida em que também nos
sentimos assim.
Como se aquilo que sempre usamos
para nos ajudar de repente não funcionasse mais.
A razão não resolve.
O controle não resolve.
A força não resolve.
Os conselhos não resolvem.
Até as práticas que normalmente nos
equilibram podem parecer distantes.
É como estar, simbolicamente, sem
mãos.
E talvez uma das partes mais
difíceis desses períodos seja aceitar que nem toda dor pode ser imediatamente
“consertada”.
Nós temos uma cultura muito voltada
para solucionar.
Sentiu? Resolva.
Doeu? Faça passar.
Ficou triste? Reaja.
Está angustiada? Encontre logo uma
explicação.
Mas há dores que não pedem solução
imediata.
Pedem presença.
E é aqui que encontro uma
aproximação muito bonita com o Reiki.
No Reiki, as mãos não precisam
chegar dizendo: “Eu vou resolver você.”
Talvez a experiência seja justamente
o contrário.
As mãos podem chegar dizendo:
“Eu estou aqui.”
Há uma diferença enorme.
Uma mão que tenta dominar a
experiência do outro é diferente de uma mão que oferece presença.
Uma mão que chega cheia de intenção
de controlar é diferente daquela que apenas sustenta um espaço de cuidado.
E talvez esse seja um dos
ensinamentos mais delicados da imposição das mãos: aprender que cuidar nem
sempre significa fazer.
Às vezes cuidar significa
permanecer.
Escutar.
Respirar.
Acolher.
Permitir.
Quem trabalha com Reiki conhece essa
experiência de colocar as mãos e, ao mesmo tempo, aprender a não interferir com
a ansiedade do ego.
Não é preciso saber exatamente o que
está acontecendo dentro do outro.
Não é preciso “adivinhar”.
Não é preciso assumir o peso da
pessoa.
Muito menos acreditar que somos
responsáveis por resolver sua dor.
A presença já é alguma coisa.
E talvez as mãos saibam disso melhor
do que nós.
Elas sabem quando apertar e quando
afrouxar.
Quando sustentar e quando soltar.
Quando tocar e quando respeitar a
distância.
Essa escuta também é uma forma de
sabedoria.
Mas há ainda outra questão muito
bonita no texto de Clarissa: se as mãos recebem, elas também transmitem.
Isso nos leva a uma pergunta que
raramente fazemos:
O que transmitimos quando tocamos
alguém?
Pressa?
Ansiedade?
Controle?
Carinho?
Segurança?
Medo?
Presença?
Não precisamos pensar apenas numa
sessão de Reiki.
Isso acontece todos os dias.
Quando pegamos na mão de alguém.
Quando abraçamos uma criança.
Quando tocamos o braço de uma amiga.
Quando fazemos carinho em quem
amamos.
Quando cuidamos de uma pessoa idosa.
Quando colocamos a mão sobre o nosso
próprio peito tentando recuperar o fôlego depois de um dia difícil.
Talvez o toque seja uma conversa
muito mais profunda do que imaginamos.
E talvez por isso a mão tenha
ocupado um lugar tão importante em símbolos religiosos, práticas espirituais,
rituais de bênção e gestos de cuidado ao longo da história.
A mão estendida também diz:
“Eu reconheço você.”
A mão pousada suavemente pode dizer:
“Você não está sozinha.”
E talvez a mão sobre nós mesmas
possa dizer algo ainda mais necessário:
“Eu não vou me abandonar.”
Essa última imagem me toca
especialmente quando penso na Donzela.
Porque a história não fala apenas da
capacidade de curar o outro.
Fala também da perda e da
recuperação da capacidade de cuidar de si.
Há mulheres extraordinárias para
colocar as mãos sobre a vida dos outros.
Cuidam dos filhos.
Dos pais.
Dos parceiros.
Dos amigos.
Dos clientes.
Dos pacientes.
Da casa.
Do trabalho.
Sabem perceber quando alguém não
está bem antes mesmo de a pessoa falar.
Mas quando a pergunta é:
“E quando é você que precisa ser
acolhida?”
algumas não sabem onde colocar as
próprias mãos.
Talvez exista aí uma reflexão muito
profunda.
Aprendemos a transmitir.
Mas será que aprendemos a receber?
Aprendemos a cuidar.
Mas conseguimos permitir que cuidem
de nós?
Aprendemos a oferecer presença.
Mas conseguimos permanecer presentes
diante da nossa própria dor?
Talvez o verdadeiro mistério das
mãos esteja justamente nessa dupla direção.
Receber e transmitir.
Dar e acolher.
Tocar e ser tocada.
Perceber o outro sem desaparecer de
si.
E talvez seja por isso que esse
pequeno trecho de Clarissa tenha me feito pensar tanto no Reiki.
Não porque precisemos provar que as
duas coisas estejam falando exatamente da mesma tradição.
Mas porque existe entre elas uma
pergunta comum e muito antiga:
o que acontece quando uma mão se
aproxima de outro ser humano com verdadeira presença?
Talvez nem tudo precise ser
explicado.
Algumas coisas são reconhecidas
primeiro pelo corpo.
Uma mão pousada no lugar certo.
Um silêncio respeitado.
Uma respiração que desacelera.
Um abraço que não tenta mudar nada.
A sensação simples de que, por
alguns instantes, não precisamos sustentar tudo sozinhas.
Talvez seja isso que nossas mãos
saibam antes de nós.
Que existem momentos em que a
presença não precisa de discurso.
Ela simplesmente toca.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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