A fome que não é de comida!
Há momentos em que
aparentemente não falta nada.
Continuamos trabalhando,
cuidando da casa, conversando com as pessoas, cumprindo compromissos, fazendo
planos.
A vida segue.
E, ainda assim, alguma
coisa dentro de nós continua com fome.
Não é uma fome que se
resolve com comida.
É uma fome difícil até de
explicar.
Fome de sentido.
Fome de afeto.
Fome de silêncio.
Fome de liberdade.
Fome de criação.
Fome de ser vista de
verdade.
Fome de uma vida que
combine mais com aquilo que estamos nos tornando.
Essa imagem aparece de
uma maneira muito bonita em A Donzela sem Mãos, de Clarissa Pinkola
Estés.
Durante sua perambulação,
a Donzela chega faminta a um pomar.
Mas existe um problema:
ela não tem mãos.
O alimento está diante
dela, mas ela não consegue simplesmente estender os braços e colher o fruto.
Então acontece algo
extraordinário:
a pereira se curva até
ela.
Dessa vez, ela não
conquista o alimento.
Ela o recebe.
Clarissa compara essa
imagem à mãe que oferece o seio ao bebê.
E acho essa comparação
muito profunda, principalmente para nós, mulheres.
Porque muitas de nós
fomos ensinadas a oferecer.
Cuidar.
Resolver.
Sustentar.
Trabalhar.
Organizar.
Acolher.
Estar disponíveis.
Mas nem sempre aprendemos
com a mesma facilidade a receber.
Receber cuidado.
Receber ajuda.
Receber descanso.
Receber carinho.
Receber uma oportunidade.
Receber sem sentir que
precisamos imediatamente devolver alguma coisa.
A Donzela está numa fase
da vida em que já fez muito esforço.
Já sofreu.
Já perdeu.
Já caminhou.
E agora a história parece
dizer:
nem tudo precisa ser
conquistado pela força.
Há momentos em que também
precisamos permitir que alguma coisa nos alimente.
Isso não significa
esperar passivamente que a vida resolva nossos problemas.
A Donzela continua
caminhando.
Mas existe uma diferença
entre caminhar e acreditar que precisamos fazer toda a travessia sozinhas.
Talvez uma das formas
mais profundas de amadurecimento seja justamente aprender a reconhecer o
alimento quando ele aparece.
Às vezes ele vem através
de uma pessoa.
Uma conversa.
Uma amizade.
Um livro.
Uma terapia.
Uma oportunidade
inesperada.
Um momento de silêncio.
Uma ideia.
Uma pequena coragem que
surge exatamente quando pensávamos não ter mais nenhuma.
Pode parecer pouco.
Mas talvez seja aquilo de
que precisamos para continuar.
E então Clarissa traz
outra imagem que amplia ainda mais essa reflexão.
Ela lembra a saudação de
Isabel a Maria:
“Bendito o fruto do teu
ventre.”
Aqui surge a imagem de
algo que está sendo gestado.
Algo ainda não nasceu,
mas já existe.
E foi aí que comecei a
pensar:
Talvez algumas das nossas
fomes apareçam porque existe alguma coisa dentro de nós tentando nascer.
Talvez a mulher que fomos
durante muitos anos já não consiga alimentar aquilo que estamos nos tornando.
Por isso certas coisas
começam a perder o sabor.
Uma conquista que antes
parecia tão importante já não satisfaz.
A aprovação das pessoas
deixa de ser suficiente.
Uma relação que ocupava
tanto espaço já não nutre.
Um trabalho que dava
segurança começa a parecer vazio.
Um antigo sonho já não
provoca entusiasmo.
E podemos interpretar
isso como ingratidão.
Confusão.
Insatisfação.
Mas talvez seja outra
coisa.
Talvez exista um novo
fruto amadurecendo dentro de nós.
Uma nova identidade.
Um desejo.
Uma escolha.
Um projeto.
Uma criatividade.
Uma voz que ficou muito
tempo calada.
Uma maneira diferente de
viver.
E se existe algo sendo
gestado, ele precisa de alimento.
Talvez por isso a
pergunta não seja apenas:
“O que está faltando na
minha vida?”
Talvez seja:
“O que está crescendo
dentro de mim e precisa ser alimentado?”
Essa mudança de pergunta
faz diferença.
Porque podemos passar
anos tentando preencher uma fome nova com alimentos antigos.
Mais trabalho.
Mais reconhecimento.
Mais consumo.
Mais aprovação.
Mais esforço.
Mais uma tentativa de
fazer aquela relação funcionar.
Mais uma tentativa de
caber num lugar que já ficou pequeno.
Mas há fomes que não
pedem mais quantidade.
Pedem outro tipo de
alimento.
Clarissa traz ainda a
imagem do maná no deserto.
E gosto muito dela porque
o maná não entrega o destino inteiro.
Ele apenas alimenta o
suficiente para continuar.
Talvez a vida também
funcione assim em algumas fases.
Não recebemos
imediatamente a resposta completa.
Recebemos aquilo de que
precisamos para o próximo trecho.
Uma percepção.
Um encontro.
Um limite.
Uma coragem.
Um não.
Um sim.
Um pequeno movimento.
E vamos seguindo.
Talvez este seja um bom
momento para perguntar:
Do que eu estou realmente
com fome?
E, mais profundamente:
O que dentro de mim está
tentando nascer e precisa ser alimentado?
Nem toda fome é sinal de
vazio.
Às vezes, ela é o
primeiro sinal de que uma nova vida interior começou a pedir espaço.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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