O pelo do urso não era a cura!
Há momentos em que chegamos à vida como quem chega à porta de uma curandeira: cansadas, feridas, impacientes e querendo uma resposta. Queremos alguma coisa concreta que nos diga o que fazer, que alivie a dor, que devolva alguém ao que era antes, que cure uma relação, que acalme uma raiva ou que organize aquilo que dentro de nós parece ter perdido o lugar. Procuramos uma palavra, um conselho, uma fórmula, um ritual, uma decisão. Procuramos, de algum modo, o nosso próprio “pelo do urso”.
No conto apresentado por Clarissa Pinkola Estés, uma mulher procura ajuda porque seu marido volta da guerra profundamente transformado. Ele está irritado, fechado e tomado por uma raiva que ela não sabe como alcançar. Diante disso, ela procura uma curandeira, esperando encontrar uma solução para aquilo que está vivendo. A curandeira, então, lhe pede algo aparentemente impossível: um pelo retirado da região do pescoço de um urso que vive na montanha.
A mulher aceita a missão e começa a subir.
Mas ela logo percebe que não pode simplesmente se aproximar do animal e arrancar aquilo de que precisa. O urso é selvagem, forte e imprevisível. Não pode ser dominado. Então ela precisa aprender outra coisa. Primeiro, observa de longe. Depois, se aproxima um pouco mais. Leva alimento. Espera. Respeita o tempo do animal. Volta no dia seguinte, e no outro, e no outro. Aos poucos, aprende a perceber quando pode avançar e quando precisa recuar. Aprende a lidar com o medo sem abandonar a tentativa. Aprende a construir confiança sem forçar a aproximação.
Até que, lentamente, aquilo que parecia impossível começa a se tornar possível. O urso permite que ela chegue perto o suficiente. Ela consegue o pelo e desce a montanha acreditando que, finalmente, possui aquilo que irá resolver seu problema.
Mas, quando entrega o pelo à curandeira, acontece algo inesperado: ela o joga no fogo.
E talvez essa seja uma das imagens mais bonitas do conto.
Porque o pelo nunca foi a cura.
A jornada era!
A mulher subiu a montanha procurando um objeto, mas voltou diferente. O que realmente trouxe daquela experiência não podia ser segurado nas mãos. Ela trouxe paciência, porque descobriu que não poderia apressar o urso. Trouxe percepção, porque precisou observar cada movimento antes de se aproximar. Trouxe respeito, porque compreendeu que força não se conquista pela violência. Trouxe coragem, porque continuou avançando mesmo diante do medo. Trouxe disciplina, porque voltou repetidamente, mesmo sem qualquer garantia de que conseguiria o que queria. Trouxe sensibilidade, porque precisou aprender a perceber o momento de aproximar-se e o momento de esperar.
E trouxe também uma compreensão ainda mais profunda: não podemos obrigar alguém, nem a nós mesmas, a se transformar no tempo que desejamos.
Talvez seja por isso que o pelo possa ser queimado. Aquilo que precisava permanecer já havia sido incorporado por ela.
Nós também fazemos isso muitas vezes. Procuramos algo fora de nós acreditando que, quando finalmente conseguirmos, tudo ficará bem. Pensamos: “Se ele mudar, eu vou ficar bem.” “Se ela reconhecer o que fez, vou conseguir seguir.” “Se eu encontrar a resposta certa, minha raiva vai desaparecer.” “Se alguém me disser exatamente o que fazer, tudo se resolve.”
Não há nada de errado em buscar ajuda. Precisamos de pessoas, de conhecimento, de orientação, de terapia, de caminhos que nos apoiem. Mas existem transformações que ninguém consegue nos entregar prontas, porque certas respostas só começam a surgir enquanto percorremos o caminho.
Há ainda uma inversão muito bonita nessa história. A mulher começa sua jornada querendo curar o marido. Era ele quem estava tomado pela raiva. Era ele quem havia mudado. Era ele quem parecia precisar da cura. Mas quem sobe a montanha é ela. Quem enfrenta o medo é ela. Quem aprende a esperar é ela. Quem precisa desenvolver uma nova maneira de se aproximar da força, da dor e daquilo que não pode controlar é ela.
Isso não significa que somos responsáveis pela transformação do outro. Pelo contrário. Talvez o conto esteja justamente mostrando que esse poder não nos pertence. Podemos acompanhar, conversar, estabelecer limites, oferecer presença e mudar nossa forma de responder, mas não podemos arrancar de alguém aquilo que essa pessoa ainda não está pronta para transformar.
O caminho que realmente está ao nosso alcance é o nosso.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar. Muitas vezes queremos curar alguém, salvar uma relação, acelerar um processo, eliminar uma emoção ou encontrar uma resposta definitiva. Queremos chegar logo ao fim da montanha. Queremos pegar o pelo.
Mas nem toda cura acontece como imaginávamos.
Às vezes pensamos que cura significa não sentir mais raiva, não lembrar, não sofrer, não ter medo ou nunca mais voltar a determinados lugares internos. Mas talvez a cura seja outra coisa. Talvez seja conseguir visitar esses lugares sem ser dominada por eles. Sentir raiva e ainda escolher como agir. Perceber o medo sem abandonar a si mesma. Reconhecer uma ferida sem transformar cada situação nova numa repetição do passado. Estabelecer limites sem precisar destruir o outro. Dar tempo ao que não pode ser apressado.
A mulher desce da montanha ainda vivendo a mesma realidade. Seu marido não foi magicamente transformado. A vida não se reorganizou num instante. Mas ela já não é a mesma mulher que iniciou a subida.
E isso muda muita coisa.
Podemos compreender intelectualmente que precisamos ter paciência, mas é diferente quando alguma situação da vida nos obriga a praticá-la. Podemos saber que precisamos respeitar nossos limites, mas é diferente quando precisamos finalmente dizer “não”. Podemos repetir que não controlamos os outros, mas é diferente quando precisamos amar alguém sem conseguir salvá-lo. Podemos entender que a raiva precisa ser transformada, mas é diferente quando ela aparece e somos nós que precisamos escolher o que fazer com ela.
Existem conhecimentos que entram pela cabeça. Outros só entram pela experiência.
Talvez seja por isso que a curandeira não ofereça simplesmente uma resposta. Ela oferece uma jornada.
E talvez possamos levar essa pergunta para a nossa própria vida: qual é o meu pelo do urso?
O que eu acredito que precisa acontecer para finalmente ficar bem? Existe alguém que ainda precisa mudar? Existe um pedido de desculpas que continuo esperando? Existe uma resposta que acredito precisar encontrar? Existe alguma situação que estou tentando resolver imediatamente, quando talvez o processo esteja pedindo tempo?
E, principalmente, quem estou me tornando enquanto busco aquilo que desejo?
Talvez exista algo que estejamos perseguindo acreditando ser a solução. Mas talvez, como no conto, o verdadeiro presente não esteja no final da montanha. Talvez esteja em cada passo dado para chegar até lá. Na coragem que desenvolvemos. Nos limites que aprendemos. Na paciência que precisamos cultivar. Nas ilusões que abandonamos. Na força que encontramos. Na pessoa que começa a surgir enquanto caminhamos.
No fim, talvez alguns “pelos do urso” também precisem ser lançados ao fogo.
Porque existem coisas que cumprem sua função simplesmente ao nos fazer caminhar até elas.
Às vezes, aquilo que buscamos não é a cura. A pessoa que nos tornamos durante a busca é que começa a nos curar.
Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua
No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.
Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.
Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:
Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.
Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.
Espero você!
#MuenBotoke #mulheresquecorremcomoslobos #clarissapinkolaestés #capitulo12 #oursodameialua #Perdão #Autoconhecimento #Relacionamentos #CuraEmocional #LibertaçãoEmocional #ressentimento #Reflexão #Ressignificação #BethCastrotaróloga #literaturaemocional #rodademulheressabiasefortes #reflexão #bhtarot #bethcastroterapias #rodadeconversavirtual #rodavirtual #rodademulheres #mulherajudamulher #mulherinteligente #forçafeminina #psicologiaarquetípica #vivênciastransformadoras #mulherselvagem #desapego #encerramentodeciclo #espiritualidade #pazinterior #raiva #curadaraiva

Nenhum comentário:
Postar um comentário