Dar nome ao que sentimos muda alguma coisa?
Às vezes sabemos que alguma coisa está errada, mas não conseguimos explicar exatamente o quê.
Sentimos um peso, uma angústia, uma irritação, uma tristeza que volta, um desconforto no corpo ou uma vontade de evitar determinados assuntos.
Mas ainda não conseguimos dizer:
“É isso que estou sentindo.”
No capítulo Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes, Clarissa Pinkola Estés trabalha justamente com a passagem do que estava silenciado para aquilo que finalmente encontra voz.
No conto da Mulher dos Cabelos de Ouro, aquilo que estava enterrado continua vivo. Os cabelos crescem, atravessam a terra, transformam-se em juncos, depois em flautas e finalmente em canção.
A canção representa aquilo que antes não podia ser dito encontrando uma forma de expressão. É nesse movimento que Clarissa relaciona a descoberta da própria voz ao início da recuperação psíquica.
Mas dar nome ao que sentimos não significa que a dor desapareça imediatamente.
Dizer:
“Eu estou com raiva.”
“Eu me senti rejeitada.”
“Aquilo me humilhou.”
“Eu ainda sinto falta.”
“Eu estava com medo.”
não resolve automaticamente aquilo que aconteceu.
Mas pode mudar nossa relação com a experiência.
Porque existe diferença entre sentir alguma coisa sem compreender o que está acontecendo e conseguir reconhecer:
“É isso que está acontecendo dentro de mim.”
Quando uma experiência começa a ganhar palavras, ela deixa de existir apenas como uma sensação confusa.
Podemos observá-la.
Pensar sobre ela.
Perceber de onde veio.
Decidir o que fazer com ela.
E, se quisermos, compartilhá-la com alguém capaz de nos ouvir.
No seu roteiro do capítulo, essa ideia aparece de maneira muito clara: aquilo que estava escondido começa a poder ser visto, nomeado e compreendido, seja numa terapia, numa conversa com alguém de confiança, através da escrita ou em outra forma segura de expressão.
Talvez por isso algumas pessoas digam:
“Eu nem sabia que sentia isso até começar a falar.”
Não porque o sentimento tenha surgido naquele momento.
Ele já estava ali.
O que surgiu foi uma forma de reconhecê-lo.
E reconhecer não significa concordar com tudo o que sentimos.
Podemos sentir raiva e escolher não agir movidas por ela.
Podemos sentir culpa e perceber depois que aquela culpa nem nos pertence.
Podemos sentir vergonha e descobrir que ela nasceu muito mais do julgamento dos outros do que de um erro nosso.
Podemos sentir tristeza e entender que aquilo é parte de um luto que ainda precisa de cuidado.
Dar nome cria uma pequena distância entre:
“Eu sou isso”
e
“Eu estou sentindo isso.”
E essa diferença pode ser importante.
Porque talvez a emoção deixe de ocupar todo o espaço e passe a ser algo que podemos observar, compreender e cuidar.
Clarissa não propõe simplesmente “fale e tudo ficará bem”.
O movimento é mais profundo:
aquilo que estava enterrado encontra voz, aquilo que encontra voz pode ser reconhecido, e aquilo que pode ser reconhecido começa a ter a possibilidade de ser elaborado.
Então talvez a pergunta não seja apenas:
“Dar nome ao que sentimos muda alguma coisa?”
Talvez seja também:
“O que dentro de mim ainda está procurando palavras?”
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