Participação mística:
de Lévy-Bruhl a Jung —
e por que Clarissa Pinkola Estés fala sobre isso?
No início do capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés apresenta uma ideia curiosa: quando realmente entramos em uma história, não permanecemos apenas como espectadores.
Por algum tempo, acompanhamos aquela experiência de dentro.
Ela explica que os junguianos chamam esse fenômeno de “mística da participação”, expressão associada ao antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl. Depois, aproxima a ideia da “identificação projetiva” na psicanálise e daquilo que os contadores de histórias chamariam de “magia solidária”. Para Clarissa, existe uma capacidade da mente de se afastar temporariamente do seu ponto de vista habitual, entrar em outra realidade e depois retornar trazendo algo aprendido.
Mas de onde veio essa ideia?
Primeiro: Lucien Lévy-Bruhl!
Lucien Lévy-Bruhl foi um filósofo e antropólogo francês que, em 1910, publicou Les fonctions mentales dans les sociétés inférieures.
Ele estudava relatos sobre povos que, naquela época, eram chamados de “primitivos” e tentou compreender uma forma de pensamento na qual as fronteiras entre uma pessoa, a comunidade, os animais, os objetos e as forças da natureza não apareciam da mesma maneira que no pensamento racional ocidental.
Foi nesse contexto que desenvolveu a chamada “lei da participação”.
Em sua formulação original, seres e objetos poderiam estar ligados de tal maneira que algo pudesse ser percebido simultaneamente como ele mesmo e, em certo sentido, como outra coisa. Não se tratava simplesmente de uma comparação intelectual. A ligação era vivenciada como real.
É importante entender isso antes de chegar a Jung.
Para Lévy-Bruhl, portanto, “participar” não significava simplesmente:
“Eu compreendo o que aquela pessoa sente.”
Era algo mais próximo de:
“Existe uma ligação entre mim e aquilo que está fora de mim que não obedece completamente à separação racional entre sujeito e objeto.”
Mas existe um problema histórico nessa teoria!
Lévy-Bruhl escreveu dentro da antropologia do início do século XX, quando ainda era comum estabelecer uma separação rígida entre povos considerados “primitivos” e sociedades consideradas “civilizadas”.
Hoje essa oposição é problemática.
E o próprio Lévy-Bruhl começou a rever profundamente sua posição.
Nos seus últimos cadernos, escritos entre 1938 e 1939, ele abandonou a ideia de que a chamada mentalidade “primitiva” pudesse ser definida fundamentalmente como pré-lógica. Seus escritos tardios mantiveram o interesse pela participação e pela experiência mística, mas sua posição tornou-se muito menos rígida do que aquela apresentada no início de sua obra.
Isso é especialmente importante porque Clarissa chama atenção justamente para esse problema.
Na nota 1 do capítulo 14, ela observa que a utilização de Jung do conceito nasceu de uma antropologia do final do século XIX e início do XX, quando pesquisadores frequentemente tratavam os povos estudados como se estivessem separados do restante da humanidade.
Clarissa propõe outra leitura: esses fenômenos precisam ser compreendidos dentro de uma continuidade humana, isto é, como possibilidades que podem ocorrer com qualquer pessoa e não como característica exclusiva de determinado povo.
Essa nota muda bastante a forma como devemos ler o trecho.
O que Jung fez com essa ideia?
Carl Gustav Jung pegou o conceito antropológico de Lévy-Bruhl e o trouxe para a psicologia.
Em Tipos Psicológicos, publicado originalmente em 1921, Jung define a participação mística como uma relação psicológica na qual o sujeito não consegue se distinguir completamente do objeto, estabelecendo com ele uma espécie de identidade parcial.
Aqui acontece uma mudança fundamental.
A questão deixa de ser apenas:
“Como determinados povos compreendem o mundo?”
e passa também a ser:
“Isso não acontece, em algum grau, dentro de todos nós?”
Para Jung, sim.
A participação mística poderia aparecer também no homem moderno, principalmente nas relações entre pessoas. Jung relaciona esse fenômeno à projeção, à transferência e a situações nas quais aquilo que pertence ao nosso mundo interior é vivido como se estivesse no outro.
Imagine, por exemplo, alguém que idealiza profundamente outra pessoa.
Ela pode dizer:
“Essa pessoa é absolutamente extraordinária. Ela possui tudo aquilo que me falta.”
Pode existir algo verdadeiro nessa percepção.
Mas também pode existir uma projeção: qualidades, desejos ou possibilidades que pertencem à própria pessoa estão sendo percebidos exclusivamente no outro.
Enquanto essa projeção permanece inconsciente, fica difícil distinguir:
“O que realmente pertence ao outro?”
e
“O que eu coloquei nele?”
Essa é uma das maneiras de compreender psicologicamente a participação mística em Jung.
Então é a mesma coisa que empatia?
Não.
Essa diferença é importante, principalmente porque nós relacionamos esse trecho anteriormente à escuta terapêutica.
A comparação ajuda a compreender o movimento, mas os conceitos não são iguais.
Na escuta empática, idealmente eu consigo me aproximar da experiência do outro sem perder a diferenciação:
“Eu consigo compreender sua dor, mas sei que essa dor é sua e não minha.”
Na participação mística, essa fronteira pode ficar menos clara.
Existe algum grau de identidade ou fusão psicológica entre sujeito e objeto.
Portanto:
Empatia = aproximação com diferenciação.
Participação mística = aproximação em que a diferenciação pode diminuir.
Na terapia, inclusive, uma das capacidades importantes do terapeuta é justamente poder se aproximar profundamente da experiência da pessoa sem se confundir completamente com ela.
E a “identificação projetiva” mencionada por Clarissa?
Aqui vale uma pequena precisão histórica.
Clarissa escreve que entre os freudianos haveria uma atitude chamada “identificação projetiva”.
Mas o termo técnico identificação projetiva não foi criado por Freud. Ele foi desenvolvido por Melanie Klein, dentro da tradição psicanalítica, a partir de conceitos como projeção e identificação que possuem raízes na obra freudiana. A literatura psicanalítica situa sua formulação no trabalho de Klein sobre mecanismos esquizoides, publicado originalmente em 1946 e posteriormente revisto.
Portanto, quando Clarissa diz “entre os freudianos”, podemos entender isso de forma ampla como a tradição psicanalítica, e não como se Freud tivesse criado pessoalmente esse conceito.
E identificação projetiva também é um conceito mais específico do que simplesmente “sentir o que o outro sente”. Em sua formulação psicanalítica, envolve projeção de aspectos do próprio self no outro e uma relação inconsciente com aquilo que foi projetado.
Então por que Clarissa traz tudo isso para falar de histórias?
Aqui chegamos ao ponto principal do capítulo.
Clarissa não está dando uma aula de antropologia nem tentando fazer uma exposição técnica da teoria de Jung.
Ela está tentando explicar por que uma história pode nos afetar tão profundamente.
Quando ouvimos A Donzela sem Mãos, podemos saber racionalmente:
“Isso é um conto.”
“Eu não sou essa mulher.”
“Eu não perdi literalmente minhas mãos.”
Mesmo assim, em determinado momento podemos sentir:
“Eu sei como é não saber o que fazer.”
“Eu já me senti sem recursos.”
“Eu também já precisei continuar sem saber para onde estava indo.”
“Eu também já precisei receber ajuda.”
A história cria uma espécie de experiência intermediária.
Continuamos sendo nós mesmas, mas temporariamente permitimos que a experiência da personagem mobilize alguma coisa dentro de nós.
É nesse sentido que podemos entender a frase de Clarissa sobre a mente se afastar do ego por algum tempo.
O ego não desaparece.
Nós não perdemos nossa identidade.
O que diminui temporariamente é a necessidade de analisar tudo apenas a partir de:
Entramos na experiência antes de julgá-la.
Depois retornamos.
E talvez retornemos percebendo algo que anteriormente não conseguíamos nomear.
É parecido com o que acontece na terapia?
Aqui, sim, existe uma comparação interessante — desde que saibamos que é uma analogia, e não uma equivalência teórica.
Imagine alguém dizendo durante uma sessão:
“Meu marido demorou para responder minha mensagem e eu senti que estava sendo abandonada.”
Quem escuta poderia imediatamente pensar:
“Que exagero. Ele só demorou para responder.”
Nesse caso, continua preso à própria perspectiva.
Uma escuta empática tentaria primeiro compreender:
“O que significa, para essa pessoa, não receber aquela resposta?”
Por alguns instantes, quem escuta tenta entrar na experiência psicológica do outro.
Não precisa concordar que houve abandono.
Mas precisa conseguir compreender por que aquilo foi vivido como abandono.
Depois volta à posição de observador e consegue refletir sobre o que aconteceu.
O movimento se parece com aquele descrito por Clarissa:
entrar → experimentar → compreender → retornar.
E agora podemos entender melhor a frase “a história é uma semente e nós somos o solo”
A história não chega a uma mente vazia.
Ela encontra nossa memória, nossos relacionamentos, nossas perdas, nossos medos, nossas experiências e aquilo que ainda não conseguimos compreender completamente.
Por isso duas pessoas podem ouvir exatamente o mesmo conto e serem profundamente tocadas por partes diferentes.
Uma mulher pode ficar impressionada com a perda das mãos.
Outra com a decisão de partir.
Outra com a árvore que se inclina para alimentá-la.
Outra com as mãos que voltam a crescer.
A história é a mesma. O solo não.
E talvez seja justamente isso que Clarissa esteja chamando de sermos “impregnadas de conhecimento”.
Não necessariamente saímos do conto pensando:
“Aprendi a seguinte teoria.”
Às vezes saímos simplesmente sentindo:
“Alguma coisa nessa história fala comigo.”
E somente depois conseguimos compreender o quê.
Um cuidado importante!
Participar de uma história não significa perder permanentemente nossos limites psicológicos.
Na verdade, a possibilidade de entrar e depois sair é fundamental.
Se eu consigo entrar na experiência de uma personagem e depois voltar para mim, posso utilizar aquela experiência simbolicamente.
Da mesma maneira, se consigo compreender profundamente outra pessoa e depois reconhecer novamente:
“isso pertence a ela; isto pertence a mim”,
existe diferenciação.
Por isso talvez possamos resumir todo esse percurso assim:
Lévy-Bruhl observou a participação como uma relação em que as fronteiras entre seres e mundo não apareciam rigidamente separadas. Jung levou essa ideia para a psicologia e percebeu que essa falta de diferenciação também existe no homem moderno. Clarissa utiliza o conceito para explicar uma capacidade humana ainda mais próxima da experiência das histórias: por alguns momentos, podemos sair do nosso ponto de vista habitual, entrar simbolicamente em outra experiência e retornar trazendo algo dela.
E é justamente por isso que alguns contos permanecem conosco muito depois de terminarmos a leitura.
Talvez não seja apenas porque entendemos a história.
Talvez seja porque, durante algum tempo, nós também a vivemos por dentro.
Para refletir!
Você já terminou um livro, filme, história ou conversa sentindo que viveu alguma coisa que não aconteceu diretamente com você — mas que, mesmo assim, lhe ensinou algo sobre a sua própria vida?
Referências para aprofundamento:
- Estés, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos. Capítulo 14 — “La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea”.
- Lucien Lévy-Bruhl, Les fonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910), obra em que desenvolve a chamada lei da participação. Pure
- Lucien Lévy-Bruhl, La mentalité primitive (1922). Classiques UQAM
- Lucien Lévy-Bruhl, Carnets (1938–1939, publicados postumamente), importantes para acompanhar a revisão de suas primeiras formulações. Classiques UQAM
- C. G. Jung, Psychological Types / Tipos Psicológicos, especialmente a definição de participation mystique no §781. IAAP
- International Association for Analytical Psychology, panorama sobre participation mystique e seu uso em Jung. IAAP
- Melanie Klein Trust e International Psychoanalytical Association para a história e definição de identificação projetiva. Melanie Klein Trust
Leituras complementares online: International Association for Analytical Psychology (IAAP), Melanie Klein Trust e acervos digitais de obras de Lévy-Bruhl.
Fonte principal: Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos, cap. 14.
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