Quando guardar um segredo começa a pesar demais!
Existem coisas que escolhemos não contar porque são íntimas. E isso é diferente de guardar algo porque sentimos vergonha, medo de julgamento, rejeição ou perda de amor.
No capítulo Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes, Clarissa Pinkola Estés mostra que alguns segredos começam a ocupar muito mais espaço dentro de nós do que imaginamos.
Ela diz:
“A mulher que guarda um segredo é uma mulher exausta.”
E essa frase diz muito.
Porque o peso não está apenas no que aconteceu. Está também no esforço de manter aquilo escondido.
É preciso evitar determinados assuntos. Controlar o que se fala. Fugir de certas lembranças. Às vezes evitar pessoas, lugares ou situações que possam tocar naquele ponto.
Clarissa usa a imagem de uma zona morta dentro da psique: um lugar cercado por portas, paredes e trincos. E quanto mais o segredo ameaça aparecer, mais energia é usada para fechá-lo novamente.
É como se uma parte de nós estivesse permanentemente dizendo:
Só que aquilo que não é dito nem sempre desaparece.
Clarissa afirma que o segredo encontra um modo de sair. Quando não consegue aparecer diretamente através das palavras, pode surgir de outras maneiras: no corpo, nos sonhos, em emoções intensas, em reações que parecem desproporcionais ou em comportamentos que nem sempre conseguimos compreender.
E então acontece algo curioso: justamente quando aquilo começa a aparecer, podemos tentar escondê-lo novamente.
Guardamos de novo. Construímos novas defesas. Tentamos manter tudo sob controle.
E ficamos ainda mais cansadas.
Por isso, quando Clarissa fala sobre revelar um segredo, não significa que precisamos contar nossa vida para qualquer pessoa.
Intimidade continua sendo intimidade.
A questão é perceber quando aquilo deixou de ser apenas privado e passou a ser uma prisão.
Talvez a pergunta seja:
Estou escolhendo não falar sobre isso porque quero preservar algo que é meu ou porque tenho medo do que aconteceria se alguém soubesse?
Essa diferença importa.
Clarissa também ressalta que aquilo que é revelado precisa encontrar uma escuta capaz de acolher. Não basta falar com qualquer pessoa. É importante que exista alguém de confiança, que consiga ouvir sem diminuir, julgar ou fugir daquilo que está sendo contado.
Às vezes esse espaço pode ser encontrado numa terapia.
Às vezes numa conversa com alguém profundamente confiável.
Às vezes começamos pela escrita, porque ainda não conseguimos dizer em voz alta.
O importante não é contar tudo de uma vez.
É começar a perceber que talvez não seja mais necessário gastar tanta energia para manter aquela porta fechada.
Porque algumas histórias continuam pesadas não apenas pelo que aconteceu.
Elas pesam também porque continuam sendo carregadas completamente sozinhas.
E talvez o primeiro movimento não seja “superar”.
Talvez seja simplesmente conseguir dizer:
“Isso aconteceu comigo.”
“Isso ainda me afeta.”
“Eu não quero mais precisar esconder isso de mim mesma.”
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