As lágrimas e o barco da alma!
Clarissa Pinkola Estés abre o capítulo 13 de Mulheres que Correm com os Lobos — Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes com uma imagem muito bonita: as lágrimas formando um rio ao redor do barco que carrega a vida da alma.
Ela descreve esse barco como algo que pode estar preso às pedras ou parado em terreno seco. E são as lágrimas que começam a soltá-lo e devolvem movimento àquilo que estava imobilizado.
Psicologicamente, podemos compreender essa imagem como uma representação da nossa própria vida interior.
Às vezes, depois de experiências difíceis, perdas, medos, vergonhas ou situações que precisaram ser suportadas por muito tempo, alguma coisa dentro de nós pode ficar presa.
As “pedras” podem simbolizar aquilo que nos endureceu: experiências dolorosas, defesas que tivemos de construir, situações em que precisamos ser fortes ou simplesmente continuar.
O “chão seco” pode representar momentos em que falta movimento emocional, quando parece difícil acessar o que sentimos ou quando uma parte da nossa vitalidade fica comprometida.
E então vêm as lágrimas.
Não porque chorar, sozinho, resolva tudo.
Mas porque o choro pode representar o momento em que aquilo que estava contido começa finalmente a encontrar uma passagem.
Clarissa diz que muitas mulheres aprenderam a guardar segredos da família, da sociedade, das pessoas que amavam e também os próprios. Por isso ela afirma que o choro pode abrir os “trincos” e “ferrolhos” daquilo que foi mantido fechado durante muito tempo.
Em termos psicológicos, podemos pensar nesses trincos como defesas internas.
São maneiras que encontramos para não tocar numa dor: não lembrar, não falar, não sentir, evitar determinados assuntos ou manter tudo sob controle.
Essas defesas muitas vezes foram necessárias.
Mas, quando permanecem rígidas por muito tempo, também podem nos deixar sem movimento.
As lágrimas podem ser o começo de outra coisa.
O momento em que a pessoa já não precisa sustentar com tanta força aquilo que estava fechado.
O que antes precisava ser controlado começa a poder ser sentido.
E, quando pode ser sentido, também pode começar a ser reconhecido, compreendido e, mais adiante, colocado em palavras.
Por isso gosto tanto da imagem do barco.
As lágrimas não apagam as pedras.
Não mudam aquilo que aconteceu.
Mas podem ajudar o barco a deixar de permanecer encalhado.
E quando Clarissa diz que esse rio leva o barco para um lugar novo, não precisamos entender isso como chegar imediatamente a um lugar onde não existe mais dor.
Podemos compreender como uma mudança de posição interna.
A pessoa deixa de estar completamente paralisada diante daquilo que viveu e começa novamente a se movimentar psiquicamente.
Não importa quantas lágrimas são derramadas. Não existe um “volume correto” de choro e quem chora mais não necessariamente elabora melhor uma experiência.
O que importa é o que essa imagem representa: a possibilidade de acessar sentimentos que estavam fechados e permitir que a vida interior volte a se mover.
Talvez seja por isso que Clarissa diga que as lágrimas são um princípio de iniciação para o ingresso no Clã das Cicatrizes.
Não porque sofrer seja algo a ser valorizado.
Mas porque reconhecer aquilo que nos marcou pode ser o começo de uma relação diferente com a nossa própria história.
Nossa próxima roda, inscrições abertas!
No dia 3 de outubro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o capítulo 13:
Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes.
Vamos refletir sobre os segredos que carregamos, a vergonha, as feridas, a importância de encontrar voz para aquilo que ficou silenciado e o significado das cicatrizes que fazem parte da nossa história.
Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
03 de outubro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp.
Talvez algumas lágrimas não venham para nos afundar. Talvez venham justamente para colocar novamente em movimento aquilo que, dentro de nós, estava parado.
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