Algumas histórias não apenas nos contam algo. Elas despertam algo em nós!
No capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés diz que, ao ouvirmos uma história, podemos ficar “impregnadas de conhecimento”.
Ela não está falando de conhecimento no sentido de decorar uma informação ou aprender uma regra.
Está falando de um conhecimento que pode chegar pela imagem, pela emoção, pela identificação e pelo reconhecimento.
Quando realmente entramos em um conto, não ficamos apenas observando o que acontece com a personagem. Nós imaginamos a cena, acompanhamos o medo, a tensão, a perda, a esperança, a coragem. Por alguns momentos, aquela experiência simbólica também se movimenta dentro de nós. É nesse sentido que Clarissa aproxima o efeito dos contos da chamada “participação mística”: entramos temporariamente em outra realidade e depois retornamos trazendo alguma coisa dela.
E talvez seja justamente por isso que algumas histórias nos atingem de um jeito tão particular.
Às vezes, uma história confirma algo!
Podemos ouvir um conto e pensar:
“Era exatamente isso que eu sentia, mas nunca consegui explicar.”
A história dá forma a algo que já existia dentro de nós.
Ela não cria necessariamente aquele sentimento. Muitas vezes, apenas o torna visível.
Uma personagem que permanece tempo demais numa situação que lhe faz mal pode nos fazer reconhecer algo parecido na nossa própria vida.
Uma personagem que finalmente diz “não” pode confirmar uma necessidade de limite que já vinha sendo sentida.
Uma personagem que parte sem saber exatamente para onde vai pode tocar alguém que também está vivendo uma transição.
Nesse caso, a história funciona como uma espécie de confirmação interna.
Em outros momentos, ela funciona como alerta!
Também podemos ouvir uma história e perceber algo que ainda não estávamos vendo.
Talvez um padrão repetitivo.
Uma escolha feita sempre pelo mesmo motivo.
Uma relação em que estamos cedendo demais.
Uma situação que parecia normal, mas começa a ser percebida de outro modo.
O conto não precisa dizer diretamente:
“Faça isso” ou “não faça aquilo”.
A própria trajetória da personagem pode provocar uma pergunta:
“Será que alguma coisa parecida está acontecendo comigo?”
Esse é um dos modos pelos quais uma história pode servir como alerta.
E, às vezes, ela oferece uma nova forma de compreender
Há experiências que já reconhecemos, mas ainda não sabemos como interpretar.
Uma história pode apresentar outro ângulo.
Pode mostrar que uma fase de desorientação não significa necessariamente fracasso.
Que pedir ajuda não significa fraqueza.
Que sair de uma situação conhecida não significa já saber exatamente qual será o próximo caminho.
Ou que uma perda pode modificar profundamente alguém sem significar que aquela pessoa deixou de existir.
Nesse caso, o conto não confirma apenas algo que já sabemos e também não funciona apenas como alerta.
Ele amplia nossa maneira de compreender uma experiência.
É por isso que Clarissa dá tanta importância às histórias!
Desde a introdução do livro, Clarissa chama as histórias de “bálsamos medicinais”.
Ela diz que elas despertam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões. Também afirma que existem, dentro das histórias, “instruções” capazes de nos orientar diante das complexidades da vida.
Mas isso não significa que todo conto tenha uma moral pronta.
Nem que exista uma interpretação única.
A mesma história pode tocar pessoas diferentes de maneiras completamente diferentes.
Uma pessoa pode se identificar com a perda.
Outra com a decisão de partir.
Outra com a espera.
Outra com a ajuda que chega.
Outra com a necessidade de recuperar a própria autonomia.
A história é a mesma, mas quem a recebe não é.
Talvez seja por isso que Clarissa use a imagem da semente e do solo.
O conto traz uma possibilidade.
Mas aquilo que germina depende também da história de quem escuta.
O conhecimento que chega antes da explicação!
Às vezes terminamos uma história sem saber exatamente por que ela nos tocou.
Alguma imagem fica.
Alguma frase incomoda.
Alguma personagem continua voltando à memória.
E só depois conseguimos compreender:
“Isso me lembrou algo que eu vivi.”
“Isso mostrou uma coisa que eu não estava querendo ver.”
“Isso me ajudou a entender melhor o que estou passando.”
Talvez seja isso que Clarissa queira dizer quando fala em ficarmos “impregnadas de conhecimento”.
Nem todo aprendizado chega primeiro pela razão.
Alguns chegam pela experiência simbólica.
Para refletir!
Você já ouviu ou leu uma história que parecia confirmar algo que você já sentia?
Alguma história já funcionou como alerta para uma situação da sua vida?
Ou já aconteceu de um conto lhe oferecer uma forma completamente nova de compreender algo que você estava vivendo?
Talvez algumas histórias permaneçam conosco justamente porque não vieram apenas para ser entendidas.
Vieram para nos ajudar a enxergar.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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