quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - A Donzela Que Não Sabe A Força Que Tem!


A mulher que ainda não sabe a força que tem!


Tenho pensado muito na Donzela sem Mãos.

Talvez porque, quanto mais avançamos na história, mais percebemos que ela não é apenas aquela jovem frágil que aparece no começo do conto.

Clarissa diz que por baixo daquela aparência existe uma heroína-guerreira.

Só que, no início, a própria Donzela ainda não sabe disso.

E quantas vezes isso acontece conosco?

Às vezes passamos anos sem saber a força que temos simplesmente porque ainda não precisamos encontrá-la.

Vivemos, confiamos, amamos, acreditamos nas pessoas, fazemos planos.

Até que alguma coisa acontece.

Uma traição.

Uma perda.

Um relacionamento que revela uma face que não conhecíamos.

Uma violência.

Uma separação.

Uma família que decide demais por nós.

Um grupo onde fazemos de tudo para pertencer, mas nunca somos verdadeiramente acolhidas.

Ou simplesmente aquele momento em que olhamos para nossa vida e percebemos:

“Eu não quero mais viver assim.”

A Donzela começa sua história inocente.

E eu não vejo essa inocência como ingenuidade ou falta de inteligência.

Há coisas que simplesmente não conseguimos saber antes de viver.

Podemos receber todos os conselhos do mundo e, ainda assim, certas verdades só se tornam nossas quando passam pela própria experiência.

Talvez por isso algumas descobertas sejam tão dolorosas.

Porque não descobrimos apenas alguma coisa sobre o outro.

Descobrimos também que a vida não funciona exatamente como acreditávamos.

É uma espécie de perda da inocência.

Depois disso não conseguimos simplesmente voltar para trás e fingir que não vimos.

No conto, a Donzela perde as mãos.

E para mim esse é um dos símbolos mais fortes de toda a história.

Porque existem momentos em que também nos sentimos assim.

Sem mãos.

Sabemos que precisamos tomar uma decisão, mas não conseguimos.

Sabemos que aquela relação não faz bem, mas continuamos.

Sabemos que determinado grupo não nos quer verdadeiramente, mas insistimos em ser aceitas.

Sabemos que precisamos colocar um limite, mas sentimos culpa.

Sabemos que poderíamos viver de outra maneira, mas alguma coisa dentro de nós ainda não consegue dar o primeiro passo.

É curioso porque, muitas vezes, olhando de fora, a mulher tem tudo.

Tem inteligência.

Tem trabalho.

Tem recursos.

Tem pessoas que poderiam ajudá-la.

Talvez tenha até consciência de tudo o que está acontecendo.

E mesmo assim não consegue sair.

Foi pensando nisso que compreendi melhor as mãos da Donzela.

Talvez não seja suficiente ter mãos.

É preciso sentir que podemos usá-las em favor de nós mesmas.

Existe uma diferença enorme entre ter recursos e sentir-se autorizada internamente a utilizá-los.

Porque medo, culpa, dependência emocional, necessidade de pertencimento, hábitos antigos e tantas outras coisas podem nos manter presas mesmo quando a porta parece estar aberta.

A Donzela, porém, não permanece para sempre naquele lugar.

Em determinado momento ela parte.

E gosto muito disso porque ela não parte sabendo para onde vai.

Ela simplesmente compreende que não consegue mais permanecer onde estava.

Quantas mudanças da nossa vida começam exatamente assim?

Não temos ainda um novo endereço interior.

Não sabemos qual será o próximo amor.

Não sabemos qual trabalho encontraremos.

Não sabemos quem continuará conosco.

Não sabemos nem exatamente quem seremos.

Mas sabemos:

“Aqui eu não posso mais ficar.”

Então caminhamos.

E pode existir muita solidão nesse caminho.

Porque quando começamos a mudar, nem sempre continuamos pertencendo aos mesmos lugares.

Algumas pessoas estranham.

Algumas relações se afastam.

Algumas conversas já não alimentam.

Aquilo que antes parecia suficiente deixa de ser.

A Donzela sente fome no caminho.

E talvez essa fome também seja nossa.

Fome de verdade.

Fome de uma relação em que não precisemos diminuir quem somos.

Fome de um trabalho que tenha sentido.

Fome de amizade verdadeira.

Fome de silêncio.

Fome de liberdade.

Fome de nós mesmas.

E aos poucos a vida começa a oferecer pequenas coisas.

Uma pessoa.

Uma oportunidade.

Uma percepção.

Uma coragem que aparece justamente quando achávamos que não conseguiríamos.

São nossas pequenas mãos de prata.

Não significam que estamos completamente reconstruídas.

Significam apenas que alguma coisa começou a funcionar novamente.

Talvez pela primeira vez consigamos dizer não.

Talvez consigamos sair.

Talvez paremos de correr atrás de quem nunca nos escolheu.

Talvez percebamos que não precisamos convencer ninguém do nosso valor.

Talvez consigamos pedir ajuda.

E cada pequeno movimento devolve alguma coisa.

Até que, no final da história, acontece algo que considero belíssimo:

as próprias mãos da Donzela voltam a crescer.

Não são mais as mãos de prata.

São as mãos dela.

Isso significa muito para mim.

Porque talvez a verdadeira reconstrução não aconteça quando alguém nos salva.

Ela acontece quando conseguimos novamente tocar nossa própria vida.

Escolher.

Criar.

Mudar.

Ir embora.

Ficar.

Dizer sim.

Dizer não.

E assumir as consequências dessas escolhas.

A Donzela do final não é a mesma jovem inocente do início.

Mas também não se tornou uma mulher endurecida.

Ela se tornou uma mulher que sabe.

Talvez seja isso que a vida esteja tentando nos ensinar em algumas das experiências mais difíceis.

Não necessariamente voltar a ser quem éramos antes.

Mas descobrir quem podemos nos tornar depois.

E talvez exista uma pergunta para levar conosco:

Em que parte da minha vida eu já tenho mãos, mas ainda não percebi que posso usá-las?

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 14h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.

Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
14h30
Google Meet - se inscreva, me chame somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Vivências Transformadoras.

Terapeuta Integrativa & Taróloga

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