A mulher que ainda não sabe a força que tem!
Tenho pensado muito na
Donzela sem Mãos.
Talvez porque, quanto
mais avançamos na história, mais percebemos que ela não é apenas aquela jovem
frágil que aparece no começo do conto.
Clarissa diz que por
baixo daquela aparência existe uma heroína-guerreira.
Só que, no início, a
própria Donzela ainda não sabe disso.
E quantas vezes isso
acontece conosco?
Às vezes passamos anos
sem saber a força que temos simplesmente porque ainda não precisamos
encontrá-la.
Vivemos, confiamos,
amamos, acreditamos nas pessoas, fazemos planos.
Até que alguma coisa
acontece.
Uma traição.
Uma perda.
Um relacionamento que
revela uma face que não conhecíamos.
Uma violência.
Uma separação.
Uma família que decide
demais por nós.
Um grupo onde fazemos de
tudo para pertencer, mas nunca somos verdadeiramente acolhidas.
Ou simplesmente aquele
momento em que olhamos para nossa vida e percebemos:
“Eu não quero mais viver
assim.”
A Donzela começa sua
história inocente.
E eu não vejo essa
inocência como ingenuidade ou falta de inteligência.
Há coisas que
simplesmente não conseguimos saber antes de viver.
Podemos receber todos os
conselhos do mundo e, ainda assim, certas verdades só se tornam nossas quando
passam pela própria experiência.
Talvez por isso algumas
descobertas sejam tão dolorosas.
Porque não descobrimos
apenas alguma coisa sobre o outro.
Descobrimos também que a
vida não funciona exatamente como acreditávamos.
É uma espécie de perda da
inocência.
Depois disso não
conseguimos simplesmente voltar para trás e fingir que não vimos.
No conto, a Donzela perde
as mãos.
E para mim esse é um dos
símbolos mais fortes de toda a história.
Porque existem momentos
em que também nos sentimos assim.
Sem mãos.
Sabemos que precisamos
tomar uma decisão, mas não conseguimos.
Sabemos que aquela
relação não faz bem, mas continuamos.
Sabemos que determinado
grupo não nos quer verdadeiramente, mas insistimos em ser aceitas.
Sabemos que precisamos
colocar um limite, mas sentimos culpa.
Sabemos que poderíamos
viver de outra maneira, mas alguma coisa dentro de nós ainda não consegue dar o
primeiro passo.
É curioso porque, muitas
vezes, olhando de fora, a mulher tem tudo.
Tem inteligência.
Tem trabalho.
Tem recursos.
Tem pessoas que poderiam
ajudá-la.
Talvez tenha até
consciência de tudo o que está acontecendo.
E mesmo assim não
consegue sair.
Foi pensando nisso que
compreendi melhor as mãos da Donzela.
Talvez não seja
suficiente ter mãos.
É preciso sentir que
podemos usá-las em favor de nós mesmas.
Existe uma diferença
enorme entre ter recursos e sentir-se autorizada internamente a utilizá-los.
Porque medo, culpa,
dependência emocional, necessidade de pertencimento, hábitos antigos e tantas
outras coisas podem nos manter presas mesmo quando a porta parece estar aberta.
A Donzela, porém, não
permanece para sempre naquele lugar.
Em determinado momento
ela parte.
E gosto muito disso
porque ela não parte sabendo para onde vai.
Ela simplesmente
compreende que não consegue mais permanecer onde estava.
Quantas mudanças da nossa
vida começam exatamente assim?
Não temos ainda um novo
endereço interior.
Não sabemos qual será o
próximo amor.
Não sabemos qual trabalho
encontraremos.
Não sabemos quem
continuará conosco.
Não sabemos nem
exatamente quem seremos.
Mas sabemos:
“Aqui eu não posso mais
ficar.”
Então caminhamos.
E pode existir muita
solidão nesse caminho.
Porque quando começamos a
mudar, nem sempre continuamos pertencendo aos mesmos lugares.
Algumas pessoas
estranham.
Algumas relações se
afastam.
Algumas conversas já não
alimentam.
Aquilo que antes parecia
suficiente deixa de ser.
A Donzela sente fome no
caminho.
E talvez essa fome também
seja nossa.
Fome de verdade.
Fome de uma relação em
que não precisemos diminuir quem somos.
Fome de um trabalho que
tenha sentido.
Fome de amizade
verdadeira.
Fome de silêncio.
Fome de liberdade.
Fome de nós mesmas.
E aos poucos a vida
começa a oferecer pequenas coisas.
Uma pessoa.
Uma oportunidade.
Uma percepção.
Uma coragem que aparece
justamente quando achávamos que não conseguiríamos.
São nossas pequenas mãos
de prata.
Não significam que
estamos completamente reconstruídas.
Significam apenas que
alguma coisa começou a funcionar novamente.
Talvez pela primeira vez
consigamos dizer não.
Talvez consigamos sair.
Talvez paremos de correr
atrás de quem nunca nos escolheu.
Talvez percebamos que não
precisamos convencer ninguém do nosso valor.
Talvez consigamos pedir
ajuda.
E cada pequeno movimento
devolve alguma coisa.
Até que, no final da
história, acontece algo que considero belíssimo:
as próprias mãos da
Donzela voltam a crescer.
Não são mais as mãos de
prata.
São as mãos dela.
Isso significa muito para
mim.
Porque talvez a
verdadeira reconstrução não aconteça quando alguém nos salva.
Ela acontece quando
conseguimos novamente tocar nossa própria vida.
Escolher.
Criar.
Mudar.
Ir embora.
Ficar.
Dizer sim.
Dizer não.
E assumir as
consequências dessas escolhas.
A Donzela do final não é
a mesma jovem inocente do início.
Mas também não se tornou
uma mulher endurecida.
Ela se tornou uma mulher
que sabe.
Talvez seja isso que a
vida esteja tentando nos ensinar em algumas das experiências mais difíceis.
Não necessariamente
voltar a ser quem éramos antes.
Mas descobrir quem
podemos nos tornar depois.
Em que parte da minha vida eu já tenho
mãos, mas ainda não percebi que posso usá-las?
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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