A Mulher de Lama — quando perder a aparência de controle nos aproxima de quem realmente somos!
Há momentos em nossa vida em que já não conseguimos parecer como antes.
Alguma coisa mudou.
Por fora, talvez ninguém compreenda
exatamente o que está acontecendo.
Mas por dentro sabemos que uma
antiga forma de existir já não consegue nos sustentar.
É nesse lugar que encontro uma das
imagens mais fortes de A Donzela sem Mãos, apresentada por Clarissa
Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos.
A Mulher de Lama.
No conto, o Diabo tenta dominar a
donzela.
Ela se banha.
Ela chora.
E ele não consegue se aproximar.
Então muda de estratégia.
Proíbe que ela se banhe.
Sua intenção é fazer com que ela se
torne suja, desgrenhada, aparentemente degradada.
Ele acredita que, retirando sua
chamada “camada civilizada”, conseguirá também retirar sua força.
Mas não compreende a natureza da
mulher que está diante dele.
Porque, quanto mais ele tenta
afastá-la de si mesma, mais ela se aproxima de alguma coisa profunda.
A donzela se transforma na Mulher
de Lama.
E é justamente ali que ela permanece
ligada à Mulher Selvagem.
Essa imagem sempre me faz pensar:
quantas vezes acreditamos que
estamos nos perdendo justamente quando estamos começando a nos encontrar em
outra camada?
Talvez você conheça essa experiência.
Durante muito tempo você consegue.
Cuida.
Resolve.
Organiza.
Trabalha.
Acolhe.
Sorri.
Diz que está tudo bem.
Continua mesmo estando cansada.
Até que um dia aquilo que antes
parecia possível começa a pesar demais.
Você já não quer alguns lugares.
Algumas conversas cansam.
Certas obrigações deixam de fazer
sentido.
O silêncio começa a chamar.
Algumas expectativas parecem
pequenas diante daquilo que está acontecendo por dentro.
E você percebe:
não consigo mais continuar
exatamente como antes.
Para quem vê de fora, talvez pareça
uma crise.
Talvez digam que você mudou.
E provavelmente mudou.
Mas mudança nem sempre significa que
estamos piorando.
Às vezes, significa que nossa
energia deixou de alimentar uma imagem e começou a procurar a verdade.
Quando a lama aparece!
Nós costumamos olhar para a lama
como algo sujo.
Algo que deve ser lavado.
Retirado.
Escondido.
Mas há uma outra possibilidade.
A lama é terra e água.
É matéria primordial.
Pode receber marcas.
Pode ser moldada.
Pode assumir outra forma.
E é justamente por isso que gosto
tanto dessa imagem.
A mulher de lama talvez seja aquela
que, por algum tempo, já não consegue apresentar ao mundo uma versão
perfeitamente organizada de si mesma.
Ela está sendo tocada pela vida.
Está sendo marcada.
Está sendo transformada.
Ainda não sabe exatamente em que
forma irá se tornar.
E isso não significa que tenha
perdido seu valor.
Significa que está em processo.
Essa imagem ganha ainda mais força
quando lembramos que, em outro momento de Mulheres que Correm com os Lobos,
no capítulo O Urso da Meia-Lua, aparecem Muerte e Hecoteptl, divindades
femininas de lama ligadas à capacidade de rastrear e penetrar aquilo que está
abaixo da superfície.
Não estou dizendo que Clarissa
estabeleça diretamente uma sequência entre essas figuras e a Mulher de Lama.
Essa é uma associação simbólica que
podemos fazer.
Mas ela me parece profundamente
fértil.
Primeiro encontramos figuras
femininas de lama capazes de conhecer aquilo que está por baixo.
Depois encontramos uma mulher que se
torna ela própria lama.
É como se a jornada mudasse de
lugar.
Antes:
escavar.
Agora:
descer.
Antes:
olhar para aquilo que existe abaixo
da superfície.
Agora:
entrar na própria terra.
E talvez seja justamente disso que
algumas fases da vida estejam nos pedindo.
Não apenas compreender.
Mas atravessar.
A queda da camada civilizada!
Existe uma camada que aprendemos a
construir para viver no mundo.
Ela tem sua importância.
Mas às vezes ficamos presas nela.
A mulher que não incomoda.
A mulher que sempre sabe o que
fazer.
A mulher que dá conta de tudo.
A mulher que cuida de todos.
A mulher que precisa parecer forte.
A mulher que mantém tudo organizado
mesmo quando sua vida interior está pedindo socorro.
Talvez essa mulher receba muitos
elogios.
“Como você é forte.”
“Como consegue fazer tudo?”
“Você nunca para.”
Mas existe uma pergunta que
raramente fazemos:
quanto custa sustentar essa imagem?
Talvez, em algum momento, a vida
retire algumas dessas certezas.
Não para destruir a mulher.
Mas para que ela descubra quem
existe por baixo delas.
Quando deixamos de parecer intactas!
Existe uma frase que resume muito do
que sinto diante da Mulher de Lama:
não preciso parecer intacta para
continuar inteira em algum lugar profundo.
Isso não significa romantizar
sofrimento.
Nem abandono.
Nem perda de autocuidado.
Nem imaginar que qualquer crise seja
um despertar espiritual.
Há situações em que precisamos de
auxílio, tratamento, apoio e cuidado concreto.
Mas existe também um tipo de
travessia interior em que a mulher simplesmente já não consegue dedicar tanta
energia a parecer perfeita.
Ela precisa voltar essa energia para
dentro.
Precisa entender o que sente.
O que deseja.
O que perdeu.
O que precisa terminar.
O que está nascendo.
Às vezes é nessa fase que ela começa
a dizer não.
Que diminui o ritmo.
Que escolhe melhor onde permanece.
Que percebe quais relações a
esgotam.
Que já não consegue sorrir apenas
para tranquilizar os outros.
E então alguém diz:
“Você mudou.”
Talvez seja verdade.
Talvez ela esteja começando a voltar
para si.
O predador não conhece tudo!
O Diabo do conto acredita que,
retirando a aparência organizada da donzela, retirará também sua força.
Esse é o erro.
Ele conhece a superfície.
Mas não conhece completamente aquilo
que vive embaixo dela.
Existe em nós alguma coisa que não
depende de aplauso.
Não depende de aprovação.
Não depende de produtividade.
Não depende de beleza.
Não depende de desempenhar
perfeitamente todos os papéis que nos foram entregues.
Existe uma natureza mais antiga.
Uma inteligência que muitas vezes se
manifesta como sensação, intuição, desconforto, sonho, desejo de silêncio ou
uma certeza que ainda não conseguimos explicar racionalmente.
É dessa região que a Mulher de Lama
começa a se aproximar.
O barro guarda a história, mas
aceita outra forma!
Há algo no barro que sempre me toca.
Ele guarda marcas.
Se colocamos a mão, a impressão
fica.
Se caminhamos sobre a terra molhada,
deixamos pegadas.
Assim também acontece conosco.
A vida deixa marcas.
Relacionamentos deixam marcas.
Perdas deixam marcas.
Escolhas deixam marcas.
O tempo deixa marcas.
Mas uma marca não significa uma
sentença.
A lama pode registrar aquilo que
aconteceu e continuar sendo matéria transformável.
Talvez nós também possamos.
Não precisamos negar a nossa
história.
Mas também não precisamos acreditar
que tudo o que nos aconteceu precisa determinar aquilo que seremos.
Podemos reconhecer a marca.
E continuar criando forma.
A Deusa do Barro não vive num
pedestal!
Quando penso em Deusas do Barro,
não penso em mulheres perfeitas.
Não penso em figuras que nunca caem.
Não penso numa espiritualidade em
que precisamos parecer constantemente iluminadas, equilibradas e serenas.
Penso na mulher que toca a própria
terra.
Na mulher que reconhece a raiva que
tentou esconder.
A tristeza que tentou controlar.
A exaustão que chamou de força.
O desejo que julgou inadequado.
A mudança que tentou adiar.
A necessidade de silêncio.
Penso na mulher que começa a
compreender que aquilo que existe dentro dela não precisa primeiro se tornar
bonito para merecer atenção.
Algumas partes precisam ser
acolhidas antes de serem transformadas.
Talvez você esteja vivendo sua fase
de barro!
Talvez você esteja num momento em
que tudo parece menos organizado.
Talvez algo esteja terminando.
Talvez você esteja questionando uma
relação.
Um trabalho.
Uma identidade.
Uma forma de viver.
Talvez você já não consiga responder
tão rapidamente quando alguém pergunta:
“E agora, o que você vai fazer?”
Talvez você ainda não saiba.
E tudo bem não saber imediatamente.
Porque existe diferença entre estar
perdida e estar num território ainda sem mapa.
A Mulher de Lama conhece esse
território.
Ela está próxima da terra.
Ainda não apresenta uma forma
definitiva.
Mas continua viva.
Continua sentindo.
Continua caminhando.
O que existe por baixo?
Talvez a pergunta mais importante
não seja:
“Como eu volto a ser quem eu era?”
Talvez seja:
“Quem está tentando nascer agora?”
O que existe por baixo da aparência?
Por baixo da necessidade de agradar?
Por baixo da mulher que sempre
precisou dar conta?
Por baixo da imagem de força?
Por baixo daquilo que você aprendeu
que deveria ser?
A lama nos convida a tocar essas
camadas.
Não para permanecer para sempre
nelas.
Mas para recuperar aquilo que
deixamos enterrado.
Nossa percepção.
Nosso instinto.
Nossa verdade.
Nossa própria natureza.
Talvez seja isso que as Deusas do
Barro tenham a nos lembrar:
há fases em que não precisamos
subir.
Precisamos descer.
Há momentos em que não precisamos
parecer prontas.
Precisamos permitir que uma nova
forma comece a nascer.
E talvez voltar para si não aconteça
quando finalmente conseguimos deixar tudo perfeito.
Talvez comece no instante em que
paramos de ter medo de sujar as mãos e temos coragem de tocar novamente a terra
de onde viemos.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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