Quando as lágrimas derretem a pedra:
Criança de Pedra!
Existem momentos em que o sofrimento não nos faz apenas chorar.
Às vezes ele faz exatamente o contrário.
Ele endurece.
Depois de muitas rejeições, perdas, humilhações ou decepções, podemos começar a criar uma espécie de proteção.
Sentimos menos.
Esperamos menos.
Confiamos menos.
E, algumas vezes, dizemos:
“Não vou mais deixar isso me atingir.”
Mas talvez exista uma diferença importante entre estar protegida e estar petrificada.
Em A Donzela sem Mãos, Clarissa Pinkola Estés traz um pequeno conto inuit justamente quando fala sobre o poder das lágrimas.
Nele, as lágrimas quentes de um menino atingem uma pedra fria.
E a pedra se rompe.
De dentro dela é libertado um espírito protetor.
A imagem é pequena, mas profundamente simbólica.
A pedra pode ser aquilo que endureceu em nós
Clarissa está falando das lágrimas não apenas como expressão de tristeza.
Elas possuem uma função.
Elas ajudam a tornar consciente aquilo que está acontecendo.
Algo que estava congelado começa a se mover.
Algo que estava fechado começa a se abrir.
Algo que parecia sem vida revela que ainda havia alguma coisa ali dentro.
Por isso gosto tanto dessa imagem:
as lágrimas não criam o espírito protetor.
Ele já estava lá.
Elas apenas ajudam a romper aquilo que o mantinha preso.
Água mole em pedra dura…
E essa imagem me lembra também um ditado popular muito conhecido:
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
É uma associação nossa, não uma relação feita por Clarissa no livro. Mas é interessante perceber como as duas imagens se encontram.
No ditado, a água representa principalmente a persistência.
Algo aparentemente frágil diante de uma pedra dura, pela constância, consegue produzir uma transformação.
No conto inuit citado por Clarissa, a imagem ganha outro significado.
São justamente as lágrimas — uma forma de água — que atingem a pedra fria e libertam aquilo que estava aprisionado dentro dela.
A pedra parece mais forte.
Mais resistente.
Mais difícil de atravessar.
A água parece frágil.
Mas é a água que consegue abrir passagem.
Talvez algumas lágrimas façam algo parecido conosco:
não destroem quem somos, mas vão abrindo passagem através daquilo que endureceu.
E isso me leva a pensar em outro conto.
E foi aí que me lembrei de O Patinho Feio!
Essa também é uma associação minha.
Quando reli esse trecho da Criança de Pedra, pensei imediatamente em O Patinho Feio.
Porque ali também encontramos uma criatura que passa muito tempo vivendo sob o impacto da rejeição.
Ele tenta pertencer.
É ridicularizado.
É afastado.
Passa por solidão.
E chega um momento em que já não sabe direito onde é o seu lugar.
Talvez muitas pessoas conheçam essa experiência.
Depois de ouvir durante muito tempo que somos demais, de menos, estranhas, inadequadas ou diferentes, existe o risco de começarmos a acreditar que o problema está em nossa própria natureza.
Foi isso que sempre me chamou atenção em O Patinho Feio.
Ele não precisava aprender a ser um pato melhor.
Ele precisava descobrir quem era.
Nem toda adaptação significa pertencimento!
Quando não sabemos quem somos, podemos gastar uma enorme quantidade de energia tentando caber em lugares que não conseguem nos reconhecer.
Mudamos nosso comportamento.
Diminuímos características nossas.
Tentamos agradar.
Escondemos sensibilidades.
Abandonamos desejos.
Silenciamos partes de nós.
E, pouco a pouco, alguma coisa pode começar a endurecer.
É como se a psique dissesse:
“Se sentir dói tanto, talvez seja melhor sentir menos.”
E isso pode funcionar como proteção durante algum tempo.
O problema é que existe um preço.
Porque a mesma proteção que impede que parte da dor nos alcance também pode nos afastar daquilo que continua vivo em nós.
A lágrima aparece quando a pedra começa a ceder!
Talvez seja por isso que a imagem trazida por Clarissa seja tão bonita.
Não é a força bruta que rompe a pedra.
Não é um martelo.
Não é uma batalha.
São lágrimas quentes.
Algo profundamente humano e aparentemente frágil consegue atingir aquilo que havia se tornado rígido.
Isso muda um pouco a maneira como podemos pensar sobre o choro.
Às vezes acreditamos que choramos porque estamos fracas.
Mas talvez existam momentos em que conseguimos chorar justamente porque já existe força suficiente para sentir aquilo que antes precisávamos manter congelado.
Clarissa traz outras imagens nesse mesmo trecho para mostrar que as lágrimas podem proteger, purificar e ajudar o processo psíquico a continuar.
Elas não são apenas consequência da dor.
Também podem fazer parte da maneira como a psique responde a ela.
O Patinho Feio também precisa atravessar um inverno!
Existe ainda outra imagem que aproxima esses universos.
O Patinho Feio atravessa o frio.
Passa por um período de isolamento, sofrimento e sobrevivência antes do momento em que finalmente reconhece sua própria natureza.
E essa transformação não acontece porque alguém simplesmente o convence:
“Você precisa ter mais autoestima.”
Ele precisa chegar a um encontro.
Um encontro com aquilo que é semelhante a ele.
E, nesse encontro, algo muda.
Pela primeira vez, sua diferença deixa de ser interpretada apenas como defeito.
Talvez seja essa uma das experiências psíquicas mais importantes que podemos viver:
encontrar um lugar onde aquilo que sempre pareceu inadequado finalmente faça sentido.
Às vezes passamos tanto tempo tentando caber em determinado ambiente, relacionamento, grupo ou expectativa que nem chegamos a perguntar:
“E se o problema não for aquilo que eu sou?”
Talvez estejamos apenas tentando pertencer ao lugar errado.
Às vezes o que precisa ser libertado não é uma nova pessoa!
Talvez seja alguém que sempre esteve ali.
Essa é outra aproximação interessante entre as duas imagens.
Na Criança de Pedra, o espírito protetor não nasce quando a pedra se rompe.
Ele é libertado.
No Patinho Feio, o cisne não aparece porque o patinho finalmente conseguiu se transformar em outra coisa.
Aquela natureza já estava nele.
Ele é que ainda não conseguia reconhecê-la.
Por isso existe uma diferença importante entre transformação e recuperação.
Nem todo processo psíquico consiste em nos tornarmos alguém completamente diferente.
Algumas vezes ele consiste em recuperar acesso a algo que ficou escondido, congelado, reprimido ou simplesmente desconhecido dentro de nós.
Talvez seja nossa capacidade de dizer não.
De criar.
De confiar na própria percepção.
De desejar.
De escolher.
De sentir.
De reconhecer aquilo que realmente combina conosco.
E talvez por isso algumas lágrimas sejam tão importantes!
Clarissa não está dizendo que chorar resolve tudo.
Muito pelo contrário.
Em outro momento desse mesmo estágio, ela é bastante clara ao dizer que:
“Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso.”
Essa diferença é fundamental.
A lágrima não desfaz aquilo que aconteceu.
Não apaga uma rejeição.
Não muda o passado.
Não transforma automaticamente uma situação difícil.
Mas pode permitir que alguma coisa continue se movimentando dentro de nós.
Em vez de endurecermos completamente, alguma coisa ainda consegue sentir.
E, enquanto conseguimos sentir, talvez também consigamos perceber.
Enquanto conseguimos perceber, talvez consigamos escolher.
E enquanto conseguimos escolher, o processo ainda pode continuar.
Nem toda pedra precisa continuar sendo pedra!
Talvez o mais interessante na história da Criança de Pedra seja justamente isso:
a pedra não estava vazia.
Havia algo dentro dela.
Aquilo que parecia apenas frio, duro e imóvel escondia uma força protetora.
Talvez também existam partes nossas que parecem assim.
Uma mulher pode dizer:
“Eu fiquei fria.”
“Não consigo confiar em ninguém.”
“Não quero mais me envolver.”
“Não quero sentir isso outra vez.”
“Não me importo mais.”
Mas talvez nem sempre exista ausência de sentimento.
Às vezes existe sentimento protegido por uma pedra.
E talvez essa pedra tenha sido necessária durante algum tempo.
O problema começa quando aquilo que foi criado para proteger passa também a nos impedir de viver.
É nesse ponto que a água se torna tão interessante como símbolo.
Ela não enfrenta a pedra tentando ser mais dura do que ela.
Ela continua sendo água.
E, ainda assim, encontra passagem.
Da pedra ao cisne!
Talvez seja isso que une, para mim, a Criança de Pedra e O Patinho Feio.
Nos dois casos, algo essencial permanece escondido durante algum tempo.
No primeiro, existe um espírito protetor preso dentro da pedra.
No segundo, existe uma natureza que ainda não foi reconhecida.
Nenhum dos dois precisa fabricar do zero aquilo que irá salvá-lo.
Existe algo que precisa ser libertado, reconhecido ou reencontrado.
E talvez muitos dos nossos processos sejam assim.
Passamos tanto tempo tentando nos corrigir que esquecemos de perguntar:
“O que em mim talvez não precise ser corrigido?”
Talvez precise apenas ser compreendido.
Talvez tenha sido rejeitado.
Talvez tenha endurecido.
Talvez esteja esperando um ambiente em que possa finalmente aparecer.
Talvez precise de tempo.
Ou talvez precise apenas de uma pequena abertura na pedra.
Para refletir!
O que em você precisou endurecer para sobreviver?
Essa proteção ainda é necessária da mesma maneira hoje?
O que continua vivo por baixo dela?
Existe alguma característica sua que você passou anos tentando corrigir porque ela não cabia no ambiente em que você estava?
Em quais lugares você tentou ser um “pato melhor” quando talvez precisasse apenas encontrar seus cisnes?
E, principalmente:
o que poderia ser libertado se aquilo que virou pedra finalmente pudesse voltar a sentir?
Porque talvez algumas lágrimas não signifiquem que estamos quebrando.
Talvez signifiquem justamente o contrário:
“Às vezes, as lágrimas não mostram que quebramos. Elas mostram que a pedra começou a ceder.”
Terapeuta Integrativa & Taróloga
#mulheresquecorremcomoslobos #clarissapinkolaestés #capitulo13 #Autoconhecimento #Relacionamentos #CuraEmocional #LibertaçãoEmocional #Reflexão #Ressignificação #BethCastrotaróloga #literaturaemocional #rodademulheressabiasefortes #reflexão #bhtarot #bethcastroterapias #rodadeconversavirtual #rodavirtual #rodademulheres #mulherajudamulher #mulherinteligente #forçafeminina #psicologiaarquetípica #vivênciastransformadoras #mulherselvagem #desapego #encerramentodeciclo #espiritualidade #pazinterior # #ProcessosDeCura #SabedoriaFeminina #Limites #Transformação #rodaterapêutica #saúdeemocional #psicologiafeminina #curaemocional #femininoselvagem #mulheresquesecuram #históriasdemulheres #desenvolvimentopessoal #MulheresEmProcesso #FemininoSelvagem #escutaempática #vozfeminina #Psicologia #Jung #MisticaDaParticipacao #LevyBruhl #Autoconhecimento #InteligenciaEmocional #EscutaEmpatica #SaudeEmocional #PsiqueFeminina #FemininoSelvagem #MulherSelvagem #Simbolismo #Arquetipos #ContosQueCuram #HistoriasQueTransformam #Terapia #Consciencia #BethCastro #resistência #florestasubterrânea #laselvasubterrânea #coragem #discernimento #limite #adonzelasemãos #vidainterior #processopsíquico #criatividade #intuição #elaboraçãopsíquica #crescimentopessoal #terapiaintegrativa #leituraterapêutica #reflexão #moinhodaalma #macieiraflorida #vidainterior #amadurecimento #crescimentopessoal #ciclosfemininos #raízes #self #desenvolvimentopessoal #rodaterapêutica #leituraterapêutica #ragnarok #criançadepedra #contonuit
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário