Depois que sabemos, já não podemos voltar
a não saber!
Esses dias encontrei uma frase de
Clarissa Pinkola Estés que me fez parar:
“Nenhum ente senciente neste mundo
tem a permissão de permanecer inocente para sempre.”
E fiquei pensando nela.
Porque existem frases que parecem
pequenas até começarmos a abri-las.
Essa, para mim, abre um mundo
inteiro.
Talvez porque fale de uma coisa que
conhecemos muito bem: aquele momento da vida em que alguma coisa acontece e nós
simplesmente não conseguimos mais enxergar o mundo da mesma maneira.
Pode ser uma decepção.
Uma perda.
Uma separação.
Uma traição.
Uma doença.
Uma situação familiar.
Uma experiência profissional.
Ou simplesmente uma verdade sobre
nós mesmas que demoramos muito tempo para reconhecer.
Até aquele momento podíamos dizer:
“Eu não sabia.”
Depois dele, não mais.
E acho que é aí que começa uma forma
diferente de amadurecimento.
Porque a inocência tem alguma coisa
de confortável.
Quando não sabemos, ainda podemos
imaginar.
Quando não vimos, ainda podemos
acreditar que determinadas coisas não existem.
Quando não reconhecemos determinado
padrão, ainda podemos dizer que foi apenas coincidência.
Mas depois que enxergamos…
alguma coisa muda.
E a pergunta passa a ser outra:
“Agora que eu sei, o que faço com
aquilo que sei?”
Talvez amadurecer seja exatamente
isso.
Não saber tudo.
Mas assumir responsabilidade pelo
que já conseguimos perceber.
E existe uma parte dessa reflexão
que me toca especialmente enquanto mulher.
Quantas vezes fomos ensinadas a não
perceber?
A não desconfiar.
A não perguntar.
A não incomodar.
A não dizer aquilo que sentimos.
Às vezes o corpo percebe primeiro.
A intuição avisa.
Algo não parece certo.
Mas imediatamente encontramos uma
explicação.
“Estou exagerando.”
“Devo ter entendido errado.”
“Talvez seja coisa da minha cabeça.”
E assim podemos permanecer muito
tempo tentando preservar uma inocência que, no fundo, já perdemos.
Porque alguma parte de nós já sabe.
A Mulher Selvagem de Clarissa não é
uma mulher que sabe tudo.
Mas é uma mulher que aprende a
confiar na própria capacidade de perceber.
Ela observa.
Fareja.
Escuta.
Reconhece.
E talvez isso seja uma das maiores
perdas de inocência que uma mulher pode viver:
parar de fingir que não percebe
aquilo que já percebeu.
Mas existe algo importante aqui.
Perder a inocência não significa
tornar-se dura.
Essa talvez seja a parte mais
difícil.
Depois de algumas experiências,
seria muito fácil dizer:
“Não confio mais em ninguém.”
“Não espero nada.”
“Não me entrego.”
“Não quero sentir.”
Mas isso não seria consciência.
Seria apenas outra prisão.
A consciência verdadeira nos ensina
a enxergar sem fechar completamente o coração.
A colocar limites sem construir
muros em torno de nós.
A dizer não sem perder a capacidade
de dizer sim.
A reconhecer o perigo sem acreditar
que tudo é perigoso.
A compreender que existem pessoas
que ferem sem concluir que todas irão ferir.
Isso, para mim, é maturidade.
Perder a ingenuidade sem perder a
ternura.
E talvez essa reflexão tenha ainda
mais força no momento em que vivemos.
Todos os dias chegam até nós
histórias de violência, guerras, intolerância, injustiças e dores humanas.
As notícias entram na nossa casa
pelo telefone.
Às vezes ainda estamos tomando café
e já estamos diante de acontecimentos que, algumas décadas atrás, talvez
demorassem dias para chegar até nós.
É muita coisa para sentir.
E existe um risco de nos tornarmos
anestesiadas.
Vemos.
Passamos.
Rolamos a tela.
Vemos outra coisa.
E outra.
E outra.
Talvez por isso eu ache tão
importante distinguir informação de consciência.
Ter informação não significa
necessariamente ter consciência.
Consciência pede pausa.
Pede reflexão.
Pede que façamos perguntas.
Pede que não aceitemos imediatamente
tudo aquilo que chega até nós.
E pede também que encontremos uma
maneira de viver depois de saber.
Não podemos resolver todas as dores
do mundo.
Nem devemos tentar carregar todas
elas.
Mas também não precisamos escolher a
indiferença como forma de proteção.
Existe um caminho entre carregar
tudo e não sentir nada.
Talvez esse caminho seja justamente
o da consciência.
Essa frase de Clarissa também me faz
pensar no Tarot.
No começo da jornada temos O
Louco.
Ele parte sem saber exatamente o que
encontrará.
Há nele alguma coisa de inocente.
Ele confia.
Experimenta.
Segue.
Mas o Louco não permanece para
sempre naquele primeiro passo.
A jornada apresenta escolhas.
Perdas.
Rupturas.
Desejos.
Sombras.
Transformações.
Até que aquele viajante já não
consegue olhar o mundo com os mesmos olhos com que começou.
Talvez aconteça o mesmo conosco.
Vamos perdendo algumas ilusões.
Algumas certezas.
Algumas imagens que tínhamos das
pessoas e também de nós mesmas.
Mas talvez a grande sabedoria esteja
em não permitir que cada perda nos torne menores.
Podemos sair de uma experiência mais
conscientes sem sair dela mais frias.
Podemos aprender.
Podemos mudar.
Podemos nos proteger melhor.
Podemos escolher diferente.
E continuar sensíveis.
Porque talvez a maior vitória não
seja chegar ao fim da vida dizendo:
“Ninguém conseguiu me enganar.”
Talvez seja poder dizer:
“Eu aprendi a enxergar sem precisar
deixar de amar.”
A inocência não dura para sempre.
Talvez nem devesse durar.
Mas isso não significa que
precisemos perder nossa essência junto com ela.
Algumas ilusões precisam morrer para
que o discernimento nasça.
Algumas verdades doem antes de
libertar.
E alguns momentos da vida
simplesmente não permitem que continuemos sendo a mulher que éramos antes.
Depois que sabemos, não conseguimos
voltar a não saber.
E talvez a pergunta mais importante
seja:
O que faremos com a mulher que nasce
depois dessa descoberta?
Porque perder a inocência é
inevitável.
Perder a alma, não.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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