O Machado de Gume de Prata — corte, iniciação e descida em A Donzela sem Mãos!
Entre todos os símbolos de A Donzela sem Mãos, poucos são tão perturbadores quanto o machado.
É com ele que o pai corta as mãos da própria filha.
À primeira vista, poderíamos enxergá-lo apenas como instrumento de violência. Mas Clarissa Pinkola Estés vai muito além.
O machado pertence a uma camada simbólica muito antiga da história. Ele está ligado à lua, ao mundo espiritual, às antigas divindades femininas, aos ritos de passagem, à poda das árvores, ao corte do cordão umbilical e à separação entre uma forma de existência e outra.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“Por que as mãos precisam ser cortadas?”
Mas também:
“Por que justamente um machado realiza esse corte?”
O machado não é simplesmente de prata
Clarissa o chama de “machado de gume de prata”.
Mas existe um detalhe importante: ela não diz que o machado inteiro era feito de prata.
Segundo sua explicação, esses antigos machados eram feitos de aço escurecido pela forja e depois afiados até que a lâmina adquirisse um brilho prateado.
A prata, nesse universo simbólico, está associada ao mundo espiritual e à lua.
Isso já transforma o objeto.
Não estamos diante apenas de uma ferramenta usada para cortar madeira.
Estamos diante de um instrumento que carrega uma dimensão ritual.
E existe ainda uma ligação que só compreenderemos plenamente mais adiante:
a prata do machado antecipa as mãos de prata que a donzela receberá.
O mesmo símbolo que aparece no momento da perda reaparecerá, transformado, no processo de reconstrução.
Antes de pertencer ao pai, o machado pertencia à deusa!
Esse é um dos pontos mais interessantes da interpretação de Clarissa.
Ela diz que, em antigas tradições ligadas ao feminino, o machado pertencia por natureza à deusa, não ao pai.
Na antiga religião minoica, segundo a autora, o machado da deusa era usado para marcar o caminho ritual do iniciado e indicar lugares considerados sagrados.
Isso muda completamente nossa maneira de olhar para a ferramenta.
O machado não servia apenas para destruir.
Ele também marcava uma passagem.
Indicava:
“Daqui em diante, você está entrando em outro território.”
E é exatamente isso que acontece com a donzela.
Depois do corte das mãos, ela não poderá mais continuar vivendo da mesma maneira.
Ela atravessa um limite.
A vida antiga termina.
Começa a descida.
O machado e o cordão umbilical!
Clarissa relata ainda que antigas contadoras de histórias croatas lhe falaram do uso de um pequeno machado ritual para cortar o cordão umbilical do recém-nascido.
Naquela simbologia, cortar o cordão significava libertar a criança do mundo subterrâneo para que ela pudesse viver neste mundo.
Essa imagem é muito importante.
O corte separa dois estados de existência.
Antes do corte, a criança pertence a um mundo.
Depois dele, precisa viver em outro.
O machado, portanto, pode simbolizar separação necessária entre uma condição antiga e uma condição nova.
Na donzela acontece algo semelhante, mas no sentido inverso.
Ela não está chegando ao mundo exterior.
Ela está sendo conduzida para o mundo subterrâneo da psique.
É como se o corte dissesse:
“Você não poderá atravessar esse caminho permanecendo exatamente como era antes.”
Mas por que cortar justamente as mãos?
Porque as mãos são uma das nossas principais formas de agir sobre o mundo.
Com elas seguramos.
Criamos.
Construímos.
Tocamos.
Protegemos.
Afastamos.
Recebemos.
Clarissa associa as mãos psíquicas à capacidade de apreender, segurar e ajudar a nós mesmas e aos outros.
Então a amputação representa uma perda radical da maneira habitual de agir.
A mulher chega a um momento em que suas antigas estratégias já não funcionam.
Ela pode até compreender que sua vida precisa mudar, mas ainda não sabe como realizar essa mudança.
É aquele estado em que alguém diz:
“Eu sei que não posso continuar assim, mas também não sei ainda como viver de outra forma.”
Esse é um dos sentidos mais profundos da descida.
O corte como iniciação!
Clarissa encontra imagens semelhantes em outras tradições.
Ela menciona que, na Ásia, o machado celestial era usado simbolicamente para separar a pessoa do self não iluminado.
Por isso ela considera a imagem do corte central para compreender o processo iniciático da donzela.
Psicologicamente, podemos entender isso como a perda temporária daquilo a que o ego costumava se agarrar.
Existem momentos em que continuamos segurando determinadas coisas simplesmente porque são conhecidas:
uma identidade,
um relacionamento,
uma posição,
uma crença,
uma imagem de nós mesmas,
uma maneira antiga de viver.
Não porque ainda nos façam bem, mas porque sabemos como existir dentro delas.
O corte rompe essa continuidade.
E aí começa a verdadeira pergunta:
Quem sou eu quando não posso mais me apoiar naquilo que sempre usei para me definir?
Por que o pai segura o machado?
Aqui a história fica ainda mais complexa.
Clarissa diz explicitamente que, nas antigas religiões matriarcais às quais ela relaciona esse símbolo, o machado pertenceria à deusa e não ao pai.
Ela interpreta a presença do machado nas mãos do pai como resultado da sobreposição de diferentes camadas religiosas e culturais da história: tradições mais novas teriam se misturado às antigas, enquanto parte do significado original foi sendo esquecida.
Portanto, o pai não ocupa originalmente o lugar ritual da deusa.
Existe aqui uma leitura simbólica muito interessante: aquilo que antes pertencia à deusa - à iniciação feminina, ao corte ritual, à passagem e à transformação - aparece agora nas mãos do princípio paterno. Podemos perceber, simbolicamente, uma mudança de lugar do poder.
Nas mãos da deusa, o machado marca passagem, iniciação e transformação. Nas mãos do pai amedrontado, ele participa da mutilação da filha.
O problema, portanto, não é apenas o machado, mas quem o utiliza e a partir de qual consciência. Aquilo que poderia servir à transformação, quando separado de seu sentido profundo, pode tornar-se instrumento de mutilação.
Mas psicologicamente sua presença também possui significado.
Clarissa o descreve como um princípio organizador da psique externa ou terrena, ligado ao self egóico.
E esse ego tem medo de morrer.
O Diabo ameaça destruir tudo: o pai, a mãe, os campos, toda a vida que ele conhece.
O pai entra em pânico.
E escolhe preservar essa estrutura conhecida, mesmo ao preço das mãos da filha.
Podemos reconhecer esse conflito internamente.
Uma parte de nós percebe que precisa mudar.
Outra responde:
“Mas se eu mudar, o que vai acontecer com toda a vida que construí?”
“E se eu perder minha segurança?”
“E se eu perder minha posição?”
“E se as pessoas não me reconhecerem mais?”
“E se tudo desmoronar?”
O pai representa justamente essa parte que tenta preservar a ordem conhecida.
Mesmo quando essa ordem já não consegue proteger a vida profunda.
Afinal, que “descida” é essa?
Quando Clarissa fala de descida, ela não está falando de um lugar físico.
A descida é o movimento da consciência para uma camada mais profunda da própria psique.
É abandonar temporariamente a superfície organizada da vida e entrar num território em que nossas antigas explicações já não resolvem tudo.
Por isso a descida pode ser acompanhada por:
confusão,
perda de referências,
mudança de valores,
questionamento de identidade,
solidão,
incerteza.
A pessoa continua sendo a mesma — e, ao mesmo tempo, percebe que já não consegue continuar sendo exatamente quem era.
Clarissa diz que parte de nós é atraída por essa descida e outra parte tenta evitá-la por todos os meios.
É compreensível.
Descer significa deixar para trás um terreno conhecido antes de saber exatamente o que encontraremos lá embaixo.
A árvore também é cortada!
Clarissa volta então a um símbolo que já conhecemos desde o primeiro estágio: a árvore.
Nas antigas tradições que ela descreve, existia a ideia de podar uma árvore jovem com um machado para que sua copa se tornasse mais fechada.
A árvore era profundamente reverenciada porque podia aparentemente morrer, ressecar e depois voltar a viver.
Além disso, fornecia inúmeras coisas necessárias à existência: madeira para aquecer e cozinhar, material para construir berços e abrigos, cajados, remédios e até um lugar elevado de onde se podia observar o perigo.
Por isso Clarissa a chama de uma espécie de “mãe selvagem”.
E aqui a donzela volta a se aproximar da árvore.
A mulher-árvore é cortada.
Mas corte não significa necessariamente extinção.
Existe diferença entre aquilo que está morto e aquilo que foi ferido, mas ainda possui vida.
Essa diferença será fundamental para o restante da história.
As tempestades de corte e as tempestades ceifadoras!
Clarissa traz então uma memória de sua infância numa região agrícola.
Ela conta que determinadas tempestades de relâmpagos e granizo eram chamadas de “tempestades de corte” ou “tempestades ceifadoras”.
Eram tempestades violentas, capazes de cortar árvores e destruir lavouras.
Depois que passavam, as famílias saíam para verificar o que ainda podia ser salvo.
As crianças menores recolhiam ramos e frutos caídos.
As maiores sustentavam plantas que ainda estavam vivas, amarrando-as com pedaços de madeira e panos.
Os adultos separavam aquilo que havia sido totalmente destruído.
Essa imagem é belíssima para compreender o processo psíquico.
Depois de determinadas “tempestades” da vida, talvez não seja possível simplesmente colocar tudo de volta no lugar.
Algumas coisas sobreviveram.
Outras precisarão de apoio.
Algumas poderão voltar a crescer.
Outras realmente terminaram.
O trabalho não consiste em fingir que nada aconteceu.
Consiste em perguntar:
O que ainda está vivo?
O que precisa ser sustentado?
O que pode ser restaurado?
E o que precisa ser enterrado porque já não pode continuar?
A família que espera no mundo subterrâneo
Clarissa transforma essa lembrança numa metáfora.
Assim como aquelas famílias saíam depois da tempestade para cuidar das plantas feridas, existe simbolicamente uma família amorosa esperando pela donzela no mundo subterrâneo.
Ou seja: a descida não é apresentada apenas como perda.
Há também forças psíquicas que ainda não conhecemos e que poderão participar da restauração.
Clarissa diz que, no mundo subterrâneo, aquilo que já não consegue viver é derrubado e dividido para ser utilizado de outra maneira.
A donzela não está velha nem doente.
Mas não pode continuar sendo como era antes.
Isso é muito diferente de dizer que ela precisava sofrer.
Não precisava.
A própria Clarissa deixa claro em suas notas que o mal praticado contra alguém não se torna aceitável pelo fato de a vítima posteriormente conseguir se fortalecer.
A questão é outra:
depois que a tempestade aconteceu, o que fazemos com aquilo que restou?
A amputação aprofunda a descida!
Quando o pai corta as mãos da donzela, Clarissa diz que ele aprofunda a descida e acelera aquilo que chama de disolutio.
A palavra é importante.
Disolutio é a dissolução das antigas referências.
Clarissa descreve esse momento como a perda dos valores que significavam tudo para nós, a perda da linha do horizonte e dos pontos de referência que sustentavam aquilo em que acreditávamos.
É quando a pessoa olha para a própria vida e pensa:
“Eu não sei mais onde estou.”
Aquilo em que acreditava mudou.
Aquilo que orientava suas escolhas já não parece confiável.
A antiga identidade não funciona.
Mas ainda não existe uma nova identidade completamente formada.
É um estado profundamente desconfortável.
Mas é também um território em que outras formas de conhecimento podem começar a aparecer.
Os ritos aborígines e a ruptura do cotidiano!
É aqui que Clarissa faz uma associação muito interessante com antigos ritos de iniciação.
Ela diz que, em ritos aborígines ao redor do mundo, o cotidiano era deliberadamente confundido ou interrompido, para que o iniciado pudesse entrar em contato com o místico.
Em outras palavras:
enquanto tudo continua funcionando exatamente como sempre funcionou, tendemos a enxergar a vida através das mesmas lentes.
O rito quebra essa continuidade.
Retira a pessoa de sua referência habitual.
O conhecido deixa de ser suficiente.
E então ela é obrigada a perceber de outra maneira.
E o que Clarissa chama de “místico”?
Essa palavra pode dar a impressão de algo sobrenatural, mas Clarissa faz uma observação muito interessante numa das notas do capítulo.
Para ela, o místico envolve conhecer o rotineiro a partir de mais de uma perspectiva.
Ela chama isso de uma espécie de misticismo pragmático: procurar a verdade de diferentes lados e, depois, decidir qual posição assumir e como agir.
Isso é muito importante para nossa leitura.
O místico não significa fugir da realidade.
Pelo contrário.
Significa ampliar a forma de enxergá-la.
Talvez eu tenha passado anos dizendo:
“Isso é normal.”
Agora consigo olhar novamente e perguntar:
“É normal para quem?”
Talvez eu pensasse:
“É assim que a vida precisa ser.”
E de repente consigo perguntar:
“Precisa mesmo?”
O cotidiano continua sendo o mesmo.
Mas minha consciência já não é a mesma.
O corte faz aparecer aquilo que ainda resta!
Clarissa observa que, quando as mãos são retiradas, os demais atributos do corpo psíquico ganham importância.
A mulher profunda continuará sua tarefa, com ou sem a assistência do antigo pai-regente da psique.
Esse talvez seja um dos sentidos mais belos do símbolo.
Quando perdemos uma maneira de funcionar, descobrimos capacidades que antes quase não utilizávamos.
Se não posso mais me apoiar naquela identidade, preciso descobrir quem sou além dela.
Se aquela relação não existe mais, preciso descobrir quem sou fora dela.
Se aquela certeza caiu, preciso aprender a pensar novamente.
Se minhas antigas “mãos” já não sabem o que fazer, talvez outras partes de mim precisem começar a falar.
O corpo.
A intuição.
Os sonhos.
A percepção.
O instinto.
O duplo machado e o feminino!
Nas notas do capítulo, Clarissa amplia ainda mais essa simbologia.
Ela menciona a semelhança formal entre o machado e os lábios abertos da vulva e fala do duplo machado da deusa como um antigo símbolo que também foi retomado por alguns grupos de mulheres como representação do retorno ao poder feminino.
Ela registra ainda uma especulação presente em seu grupo de estudos, Las Mujeres, aproximando o formato do machado de dois gumes, das asas abertas da borboleta e da vulva — imagens associadas simbolicamente à alma.
É importante perceber que a própria autora apresenta parte dessas associações como especulação simbólica, e não como uma afirmação histórica definitiva.
Mas a imagem é sugestiva.
O machado corta.
A borboleta transforma-se.
A vulva é passagem para a vida.
Três imagens diferentes se encontram numa mesma ideia:
atravessar uma fronteira e sair transformada do outro lado.
Então por que o machado?
Talvez agora possamos responder.
O machado é a ferramenta do conto porque ele separa.
Separa antes e depois.
Velho e novo.
Superfície e profundidade.
A vida conhecida e a descida.
Aquilo a que o ego se agarra e aquilo que a mulher ainda precisará descobrir.
Mas o mesmo machado que corta também pertence, nas camadas antigas recuperadas por Clarissa, à deusa que marca o caminho do iniciado.
Por isso ele é um símbolo tão ambíguo.
Ele fere.
Mas também marca uma passagem.
Ele poda.
Mas a árvore pode voltar a crescer.
Ele separa.
Mas também inaugura outra etapa.
Ele aparece nas mãos do pai dentro de uma história já transformada por muitas camadas culturais, embora Clarissa diga que, numa camada mais antiga, ele pertenceria à própria deusa.
E talvez esteja aí uma das imagens centrais deste segundo estágio:
a mulher não está apenas perdendo aquilo que possuía. Ela está sendo retirada, de maneira dolorosa, da forma de vida que conhecia.
Ainda não sabemos quem ela será depois.
Ela também não sabe.
Por enquanto existe apenas o corte.
A tempestade passou.
Os galhos estão espalhados pelo chão.
Algumas coisas não poderão mais ser recuperadas da maneira antiga.
Outras continuam vivas.
E, em algum lugar mais profundo da psique, já existem forças esperando para ajudá-la a descobrir:
o que precisa ser enterrado, o que precisa ser sustentado e o que ainda poderá voltar a florescer.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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